Parte 4
Rafael ficou olhando para minha mão como se tivesse dificuldade para entender o que estava vendo.
Depois virou lentamente o rosto para Gustavo.
— Isso é sério?
Eu quase ri.
Não porque a situação fosse engraçada, mas porque a pergunta dizia muito sobre Rafael.
Durante anos, ele tinha decidido sozinho o que era importante para nós.
Agora parecia incapaz de aceitar que eu pudesse ter tomado uma decisão importante sem consultá-lo.
— É sério — respondi.
Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu imediatamente.
Gustavo não se mexeu.
Também não tentou demonstrar posse ou transformar aquele encontro em uma disputa entre dois homens.
Apenas ficou ao meu lado.
E foi justamente por isso que me senti ainda mais segura.
Rafael respirou fundo.
— Você se casou?
— Sim.
— Depois de poucos meses?
— Sim.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Mariana, fala sério. Você fez isso por raiva de mim?
Dessa vez eu sorri.
— Não.
— Então como consegue explicar?
Olhei diretamente para ele.
— Eu não preciso explicar meu casamento para meu ex-namorado.
A palavra “ex” pareceu atingi-lo.
Rafael desviou os olhos por um instante.
— Eu achei que você só precisava de tempo.
— Você achou muita coisa sem perguntar.
— Eu sabia que estava errado. Só pensei que, depois que a raiva passasse…
Interrompi:
— Não era raiva.
Ele franziu a testa.
— Como não?
— Era cansaço, Rafael. Eu estava cansada há anos. O guarda-chuva só fez eu finalmente enxergar.
Ele olhou para Gustavo outra vez.
— Então você trocou oito anos por esse cara?
Gustavo finalmente se moveu, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, ergui a mão.
Eu mesma responderia.
— Não troquei você por ninguém.
Minha voz saiu firme.
— Eu deixei você porque você mentiu, me desrespeitou e depois tentou fazer parecer que eu era infantil por me importar. Eu conheci o Gustavo depois.
Rafael apertou a mandíbula.
— Eu não menti.
— Você disse que eu tinha interpretado errado.
Ele ficou calado.
— Depois admitiu que estava se envolvendo com ela havia semanas — continuei. — Enquanto eu ainda estava em casa tentando descobrir o que estava acontecendo com a gente.
— Eu estava confuso.
— Eu sei.
— Então por que você fala como se eu tivesse planejado machucar você?
Respirei fundo.
— Porque o resultado não depende de você ter planejado. Você sabia que aquilo me machucaria e continuou mesmo assim.
Ele baixou o olhar.
Talvez fosse a primeira vez que não encontrava uma justificativa rápida.
Depois de alguns segundos, falou:
— Aquilo acabou.
— Eu imaginei.
— Não deu certo.
Não senti satisfação.
Também não senti pena.
Aquilo simplesmente já não me dizia respeito.
Rafael continuou:
— Eu percebi que estava procurando novidade porque nossa relação tinha entrado numa rotina. Depois que você foi embora, entendi que rotina não era o problema.
— E qual era?
Ele me encarou.
— Eu.
A resposta me surpreendeu.
Durante alguns segundos, vi nele um arrependimento que parecia verdadeiro.
Mas arrependimento não apagava consequência.
— Talvez você tenha entendido tarde — falei.
— Eu posso mudar.
— Espero que mude.
Os olhos dele se iluminaram por um instante.
Completei:
— Mas não por mim.
A esperança desapareceu novamente.
— Mariana…
Balancei a cabeça.
— Não.
Ele pareceu querer argumentar.
Então olhou para minha aliança.
— Você ama ele?
Gustavo continuava calado.
Eu poderia ter usado aquela pergunta para ferir Rafael.
Não quis.
— Amo.
Minha resposta foi simples.
Rafael respirou fundo, fechou os olhos por alguns segundos e soltou o ar devagar.
— Mais do que me amou?
Pensei antes de responder.
— De um jeito diferente.
Ele esperou.
— Eu amei muito você, Rafael. Talvez até mais do que deveria, porque durante muito tempo eu coloquei nossa relação acima de mim mesma.
Minha voz ficou mais baixa.
— Com Gustavo eu não preciso desaparecer para conseguir amar.
O silêncio voltou.
Minha mãe tinha saído do galpão e observava de longe.
Ela não se aproximou.
Sabia que aquela conversa era minha.
Rafael olhou para o pomar, para as caixas, para minha roupa simples de trabalho.
— É isso que você queria para sua vida?
A pergunta tinha um tom que eu conhecia.
Não era exatamente desprezo.
Era incredulidade.
Como se aquela pequena cidade, aquele trabalho e aquela rotina fossem inferiores ao apartamento de São Paulo, aos restaurantes caros e ao futuro que a família dele julgava ter preparado.
Sorri.
— É.
— Você poderia ter muito mais.
— Eu tenho muito mais.
Ele franziu a testa.
Apontei discretamente ao redor.
— Tenho minha mãe perto. Tenho trabalho. Tenho meu próprio dinheiro. Tenho paz quando chego em casa.
Olhei para Gustavo.
— Tenho alguém que não precisa perder outra pessoa para lembrar que eu mereço respeito.
Rafael engoliu em seco.
— Eu também respeitava você.
— No começo, sim.
Ele ficou imóvel.
— Depois você se acostumou comigo.
Dei um passo mais perto, sem agressividade.
— Você tinha certeza de que eu nunca iria embora. Por isso podia chegar às onze da noite e reclamar da comida que eu tinha preparado. Podia me deixar andando atrás de você na chuva. Podia se aproximar de outra mulher e, se eu descobrisse, bastaria dizer que eu estava exagerando.
A expressão dele mudou.
Havia vergonha agora.
— Eu sei.
— Ótimo.
— Você quer que eu peça desculpas?
— Não preciso.
— Mas eu quero.
Fiquei quieta.
Rafael abaixou a voz.
— Desculpa.
Aquela era uma palavra que eu tinha esperado durante semanas.
Talvez durante anos.
Agora que finalmente chegava, não tinha mais poder sobre mim.
— Eu aceito que você esteja arrependido — respondi. — Mas isso não significa que eu tenha que voltar.
Ele assentiu lentamente.
— Entendi.
Por alguns segundos, achei que a conversa terminaria ali.
Mas Rafael olhou para Gustavo e perguntou:
— Você sabia de mim?
Gustavo respondeu pela primeira vez:
— Sabia.
— E nunca teve problema?
Gustavo colocou as mãos nos bolsos.
— Todo mundo tem passado.
Rafael soltou uma risada amarga.
— Fácil falar quando você ficou com a parte boa.
Gustavo não reagiu à provocação.
— Mariana não é uma parte de nada.
A resposta foi tão simples que Rafael ficou sem reação.
Olhei para Gustavo.
Ele apenas me lançou um olhar tranquilo.
Não havia orgulho por ter “vencido” outro homem.
Não havia disputa.
Só respeito.
Então Rafael finalmente percebeu o que eu tinha tentado explicar.
A diferença nunca fora dinheiro.
Nem cidade.
Nem tempo de relacionamento.
Era a forma como eu era tratada.
Ele voltou os olhos para mim.
— Então acabou mesmo.
— Acabou naquela noite em que eu saí pela porta.
— E não existe nenhuma chance?
Pensei na frase que ele tinha dito naquela mesma noite.
“Se você sair, não espere voltar.”
Quase parecia irônico.
Mas eu não precisava devolver crueldade com crueldade.
— Não existe.
Rafael assentiu.
Os olhos ficaram vermelhos, embora ele não chorasse.
— Eu devia ter ido atrás de você antes.
— Talvez.
— Devia ter atendido seu telefone naquele dia.
— Talvez.
Ele soltou o ar.
— Devia ter feito muita coisa diferente.
— Pois é.
Rafael virou-se para ir embora.
Deu alguns passos e parou.
— Espero que você seja feliz.
Dessa vez, a frase não soou como tentativa de me convencer de nada.
— Eu também espero que você aprenda a ser.
Ele entrou no carro.
Fiquei observando até o veículo desaparecer pela estrada.
Só então percebi que minhas mãos tremiam levemente.
Gustavo se aproximou.
— Você está bem?
— Estou.
Ele apontou para minha mão.
— Não parece.
Olhei para os dedos trêmulos e ri baixinho.
— Meu corpo ainda não recebeu a informação.
Gustavo sorriu.
— Quer ir para casa?
Balancei a cabeça.
— Não. Tem entrega para terminar.
Ele não insistiu.
Apenas colocou uma garrafa de água na minha frente e voltou comigo para o galpão.
Minha mãe veio ao meu encontro.
Por alguns segundos, não disse nada.
Depois me abraçou.
— Foi difícil?
Encostei o rosto no ombro dela.
— Menos do que eu achava.
Ela acariciou minhas costas.
— Então está bom.
Naquela tarde, continuei trabalhando.
Não houve música emocionante.
Não houve uma sensação mágica de que todos os anos difíceis tinham desaparecido.
Eu ainda lembrava.
Ainda havia algumas feridas que precisavam de tempo.
Mas agora essas lembranças pertenciam ao passado, não ao meu futuro.
Nos meses seguintes, eu e Gustavo ampliamos a venda direta das frutas para pequenos mercados e clientes da região.
Eu assumi oficialmente a parte administrativa e comercial.
Não era “a esposa do dono ajudando”.
Eu tinha responsabilidades claras, salário e participação nas decisões referentes ao meu trabalho.
Minha mãe continuou no pomar por vontade própria, mas passou a trabalhar muito menos.
Quando eu dizia que ela podia parar de vez, respondia:
— E ficar em casa fazendo o quê? Olhando para a parede?
Então reduzimos seus horários.
Ela aceitou depois de muita reclamação.
Rafael nunca mais apareceu.
Meses depois, recebi uma mensagem curta dele desejando feliz aniversário.
Respondi apenas:
“Obrigada.”
E aquilo foi tudo.
Não havia ódio.
Também não havia porta aberta.
Algumas pessoas acham que superar significa esquecer.
Eu aprendi que não.
Superar é conseguir lembrar sem sentir vontade de voltar.
Certo fim de tarde, começou a chover enquanto eu e Gustavo voltávamos do galpão.
Ele abriu um guarda-chuva.
Automaticamente, inclinou-o na minha direção.
Olhei para o ombro dele ficando molhado.
— Ei.
— O quê?
Peguei o cabo e empurrei o guarda-chuva para o meio.
— Cabe nós dois.
Gustavo riu.
— Tá bom, chefe.
Seguimos lado a lado pela estrada molhada.
Naquele instante, lembrei da tarde em São Paulo em que outro guarda-chuva tinha destruído a vida que eu imaginava ter.
Sorri.
Porque agora entendia que ele não tinha destruído minha vida.
Apenas tinha revelado que eu estava tentando salvar a vida errada.
Segurei a mão de Gustavo e continuei andando, sem precisar correr atrás de ninguém.
Dessa vez, eu estava exatamente onde queria estar, ao lado de alguém que caminhava no mesmo passo que eu, enquanto uma vida muito mais tranquila e digna começava diante de nós.
Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨