Parte 4
A pergunta ficou alguns segundos entre nós.
Talvez aquela fosse a primeira vez que Rafael percebia que o problema nunca tinha sido apenas a duração da hipnose.
Ele ainda enxergava tudo como uma falha técnica.
Três meses deveriam terminar em três meses.
As lembranças deveriam retornar.
O amor deveria voltar.
E eu deveria ocupar novamente o lugar onde ele havia me deixado.
Mas pessoas não funcionam assim.
— Rafael — falei calmamente —, você ainda não entendeu.
Do outro lado da ligação, ouvi apenas a respiração dele.
— Minhas lembranças estão voltando aos poucos.
Silêncio.
Depois a voz dele ganhou esperança.
— Eu sabia.
— Não comemore.
Ele ficou quieto.
— Eu lembrei de você preparando meu café. Lembrei de uma viagem que fizemos. Lembrei de você cuidando de mim quando fiquei doente. Lembrei de como me pediu em casamento.
Minha garganta apertou.
— E lembrei do quanto eu amava você.
Rafael começou a chorar novamente.
— Então ainda existe uma chance.
Fechei os olhos.
Era exatamente aquilo.
Ele escutava apenas o que queria.
— Também lembrei da caixa.
O choro cessou.
— Lembrei de perguntar o que aconteceria se alguma coisa desse errado. Lembrei do seu rosto quando você hesitou. E lembrei de você abrindo a tampa mesmo assim.
— Mariana…
— Eu amava você, Rafael. Talvez uma parte de mim ainda ame o homem que eu conhecia antes daquela noite.
Ele respirou fundo.
— Então me deixa consertar.
— Não.
A palavra saiu sem raiva.
E talvez por isso tenha sido mais forte.
— Você não pode consertar uma decisão que tirou de mim o direito de decidir.
Rafael insistiu que poderia abandonar o projeto.
Disse que aceitaria acompanhamento profissional, terapia, qualquer condição.
Pediu uma conversa presencial.
Depois de pensar durante dois dias, concordei.
Não porque quisesse voltar.
Eu precisava encerrar aquela história olhando nos olhos do homem que um dia quase se tornou meu marido.
Nos encontramos em uma sala reservada da própria instituição, onde ele já não tinha acesso ao laboratório enquanto a investigação interna continuava.
Rafael parecia exausto.
Sentou-se diante de mim e não tentou tocar minha mão.
Pelo menos havia aprendido isso.
— Camila sabe? — perguntei.
— Sabe sobre nós.
— Não foi isso que perguntei.
Ele entendeu.
— Ela sabe do que fiz com você agora.
— E o que ela disse?
Rafael abaixou os olhos.
— Que eu não deveria ter feito.
Não senti raiva de Camila.
Durante aqueles meses, eu a culpei em alguns momentos, mesmo sem conhecê-la. Depois percebi que isso facilitava demais as coisas para Rafael.
Camila podia ter pedido que ele ficasse.
Podia ter alimentado sentimentos antigos.
Podia até ter aceitado aquela cerimônia simbólica.
Mas ela não tinha aberto a caixa na minha sala.
Rafael tinha.
— Ela está melhor? — perguntei.
— O câncer continua avançado. O tratamento trouxe alguma estabilidade, mas ninguém sabe por quanto tempo.
Assenti.
— Você ainda está com ela?
— Não.
Levantei os olhos.
Ele explicou que, depois dos três meses, Camila percebera que Rafael estava obcecado em voltar para mim.
Os dois discutiram.
Ela teria dito que não queria passar o restante da vida, fosse muito ou pouco, sendo usada como justificativa para a culpa de outra pessoa.
Não havia romance naquela separação.
Apenas consequências.
— Eu estraguei tudo — Rafael disse.
— Estragou muita coisa.
— Eu achei que conseguiria salvar todo mundo.
— Você tentou evitar escolher.
Ele me olhou.
Continuei:
— Queria ser o homem que acompanhava a mulher doente até o fim e, ao mesmo tempo, continuar sendo o noivo perfeito que voltaria para mim depois. Como as duas coisas eram incompatíveis, você decidiu retirar a minha participação da equação.
Rafael cobriu o rosto com as mãos.
— Eu sei.
— Agora sabe.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois colocou sobre a mesa um envelope.
— O que é isso?
— Uma declaração assinada por mim.
Não toquei.
Rafael explicou que havia relatado formalmente à comissão responsável pelo projeto tudo o que tinha feito.
Sem minimizar.
Sem dizer que eu havia concordado.
Sem esconder que conhecia os riscos.
— Eles já tinham meu depoimento — falei.
— Eu sei. Mas eu estava tentando me defender. Dizendo que você não tinha recusado diretamente, que eu acreditava na reversão… Eu percebi que estava repetindo a mesma coisa.
Ele respirou fundo.
— Tentando transformar a minha decisão em uma decisão sua.
Pela primeira vez, senti que ele começava a compreender.
Não significava que eu o perdoaria.
Muito menos que voltaríamos.
Mas havia diferença entre arrependimento por perder alguma coisa e arrependimento por finalmente entender o dano causado.
— O que vai acontecer com você?
— O comitê suspendeu meu acesso ao projeto. Minha atuação clínica também está sendo revisada. Posso perder a liderança da pesquisa.
Ele soltou uma risada amarga.
— Talvez eu mereça.
— Não vou decidir isso.
— Eu sei.
Rafael ergueu os olhos.
— Também comecei terapia.
Assenti.
— É bom.
— Não estou dizendo isso para convencer você a voltar.
— Espero que não.
— Pela primeira vez, estou tentando fazer alguma coisa sem calcular como isso vai fazer você reagir.
A frase me surpreendeu.
Mas não mudou minha decisão.
Tirei minha antiga aliança de noivado do bolso.
Eu havia encontrado aquela aliança poucos dias antes, dentro de uma pequena caixa junto das coisas do casamento.
Coloquei-a sobre a mesa.
Rafael ficou olhando.
— Eu ainda tinha esperança de que você não fizesse isso.
— Eu sei.
— Você tem certeza?
Dessa vez, não senti medo da pergunta.
— Tenho.
Ele fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu por seu rosto.
— Você nunca mais vai voltar?
Pensei antes de responder.
Não porque estivesse em dúvida.
Mas porque não queria transformar o fim de uma relação em crueldade.
— Eu não sei quem vou ser daqui a cinco anos. Não sei quantas lembranças ainda vão voltar. Mas sei uma coisa: eu não quero reconstruir nossa relação.
Ele abaixou a cabeça.
— Mesmo me amando?
— Mesmo tendo amado você.
Rafael apertou a aliança na mão.
— Por quê?
Sorri de leve.
Não havia deboche.
Apenas certeza.
— Porque amor não é o único critério para escolher com quem a gente divide a vida.
Ele ficou em silêncio.
— Eu mereço alguém que me conte uma verdade dolorosa em vez de decidir por mim. Mereço alguém que aceite minha raiva, meu choro e até minha rejeição, porque entende que meus sentimentos pertencem a mim. Mereço alguém que não precise me apagar para conseguir fazer o que quer.
Rafael começou a chorar novamente.
E então repetiu, quase num sussurro:
— Eu só queria três meses.
— Foram três meses para você.
Minha voz permaneceu calma.
— Para mim, foi o momento em que descobri que o homem que eu amava achava que tinha o direito de controlar aquilo que eu podia lembrar.
Ele não tentou mais discutir.
Quando saí daquela sala, senti uma tristeza enorme.
Mas não senti arrependimento.
Nas semanas seguintes, outras lembranças retornaram.
Algumas eram bonitas.
Outras doíam.
Pouco a pouco, consegui reconstruir partes da minha própria história.
Percebi que esquecer Rafael não significava ter perdido todos aqueles anos.
As viagens continuavam sendo minhas.
As conquistas profissionais continuavam sendo minhas.
Os amigos que fiz, os lugares que conheci, as coisas que aprendi…
Nada disso precisava desaparecer só porque nosso relacionamento havia terminado.
O processo interno contra Rafael seguiu seu curso.
Ele foi retirado da liderança daquele projeto e permaneceu afastado de qualquer atividade que envolvesse procedimentos semelhantes enquanto passava por nova avaliação profissional.
Não acompanhei cada detalhe.
Não queria transformar a punição dele no centro da minha recuperação.
Meu objetivo era recuperar minha própria vida.
Meses depois, vendi o vestido que nunca usei.
No começo, achei que choraria.
Mas quando a mulher que o comprou saiu sorrindo com a caixa nas mãos, senti um alívio quase inesperado.
Voltei para o apartamento, abri as janelas e reorganizei a sala.
A marca onde a pequena caixa de Rafael ficara naquela noite já não existia.
Nem precisava existir.
Eu também não precisava continuar sendo a mulher que passava os dias esperando as lembranças voltarem para descobrir o que deveria sentir.
Comecei a aceitar que memória e escolha eram coisas diferentes.
Eu podia lembrar de ter amado Rafael.
Podia lembrar de momentos felizes.
Podia até sentir saudade de quem ele tinha sido para mim.
E ainda assim escolher não voltar.
Certo fim de tarde, meses depois, recebi uma última mensagem dele.
“Espero que você esteja bem. Não vou mais procurar você. Obrigado pelo que vivemos. Desculpa pelo que fiz.”
Li uma vez.
Depois apaguei.
Não porque precisasse apagar Rafael novamente.
Dessa vez, eu lembrava.
E justamente por lembrar, podia escolher seguir em frente.
Fiz café, sentei perto da janela e observei São Paulo começando a acender suas luzes.
Minha vida não tinha terminado com o casamento cancelado.
Também não tinha terminado quando perdi minhas lembranças.
Na verdade, eu finalmente havia compreendido algo que Rafael nunca conseguiu decidir por mim:
eu tinha o direito de escolher quem permaneceria na minha vida.
E, depois de tudo o que aconteceu, escolhi a mim mesma.
Foi assim que deixei para trás o homem que tentou me fazer esquecê-lo por três meses e comecei, com dignidade e sem medo, uma vida em que ninguém jamais voltaria a decidir por mim.
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