Meu noivo me hipnotizou para me apagar por três meses e acompanhar o primeiro amor dele até o fim

admini Th8 25, 2026
9 min read 27 views

Parte 3

No nonagésimo dia, acordei antes do despertador.

Fiquei alguns minutos olhando para o teto, esperando alguma coisa acontecer.

Uma imagem.

Uma voz.

Um abraço.

Qualquer lembrança repentina que provasse que Rafael estava certo.

Nada veio.

Levantei, preparei café e me sentei à mesa. O relógio avançou lentamente até as nove da manhã. Depois dez. Depois onze.

Eu continuava sabendo quem Rafael era apenas porque havia reaprendido aquelas informações durante os últimos três meses.

Nome: Rafael.

Profissão: especialista em hipnose.

Meu ex-noivo.

O homem que havia decidido apagar temporariamente minha memória para acompanhar o primeiro amor.

Mas não havia carinho.

Não havia saudade.

Não havia aquela familiaridade automática que sentimos quando pensamos em alguém que amamos durante anos.

Perto do meio-dia, ele me ligou.

Não atendi.

Poucos minutos depois, outra mensagem apareceu.

“Mariana, os três meses acabaram.”

Meu peito apertou, mas não por amor.

Era ansiedade.

Rafael tinha tratado aqueles noventa dias como se fossem um contrato com data de vencimento. Na cabeça dele, bastava esperar o prazo terminar para que nossa vida retomasse exatamente do ponto em que havia sido interrompida.

Eu já sabia que não seria assim.

Por volta das duas da tarde, ele apareceu no prédio.

A portaria me ligou.

— Mariana, o Rafael está aqui. Você autoriza a entrada?

Segurei o telefone por alguns segundos.

Eu poderia ter mandado dizer que não.

Mas havia perguntas que eu precisava fazer olhando para ele.

— Pode subir.

Quando a campainha tocou, abri a porta e quase não reconheci o homem das fotografias.

Rafael estava mais magro.

A barba crescida deixava seu rosto abatido. Os olhos carregavam olheiras profundas, e havia uma mala pequena ao lado dele.

Ele me observou como se estivesse esperando que eu corresse para seus braços.

Não me mexi.

— Oi — disse ele.

— Oi.

Rafael olhou para dentro do apartamento.

— Posso entrar?

Dei espaço.

Ele caminhou pela sala lentamente, reparando que algumas coisas haviam mudado. Eu tinha guardado as fotos do casamento, retirado os objetos dele do banheiro e colocado suas roupas em caixas.

A aliança que eu usaria depois da cerimônia continuava dentro do estojo.

Nunca havia chegado ao meu dedo.

Rafael tocou uma das caixas.

— Você arrumou minhas coisas.

— Arrumei.

— Mas hoje completa exatamente três meses.

— Eu sei contar.

Ele me olhou desconcertado.

Depois tentou sorrir.

— Você está brava. Eu entendo.

Aquela frase me incomodou.

— Não, Rafael. Você não entende.

— Mariana…

— Antes de qualquer coisa, eu quero saber da Camila.

Ele respirou fundo.

— Ela está viva.

Eu já sabia.

Mesmo assim, ouvir aquilo da boca dele tornou tudo mais absurdo.

— E?

— A doença continua grave. Mas ela respondeu melhor a alguns tratamentos. Os médicos nunca deram uma data exata. Eram estimativas.

Cruzei os braços.

— Então os três meses que você usou para decidir o que fazer com a minha vida nem sequer eram um prazo real.

— Eu achava que eram.

— Você queria acreditar que eram.

Rafael não respondeu.

Perguntei sobre a viagem.

Ele confirmou.

Viajaram juntos.

Camila queria rever lugares que tinham significado para os dois. Rafael pagou parte das despesas e acompanhou consultas entre uma viagem e outra.

Então perguntei sobre a cerimônia.

O maxilar dele se contraiu.

— Não foi um casamento legal.

Eu quase ri.

— Não perguntei se foi registrado em cartório.

— Ela queria realizar um sonho antigo.

— E você realizou.

— Mariana, ela acreditava que ia morrer.

— E eu deveria ter me casado com você dois dias depois de você apagar a minha memória.

Ele levantou a voz pela primeira vez.

— Eu achei que estava poupando você!

Fiquei imóvel.

Rafael percebeu o que tinha acabado de dizer e fechou os olhos.

— Poupando de quê?

Ele demorou a responder.

— Da dor.

— Não. Você estava poupando a si mesmo da minha reação.

O silêncio caiu entre nós.

Aquela foi a primeira vez que vi Rafael realmente sem argumento.

Continuei:

— Se você tivesse terminado comigo e ido ficar com ela, eu teria sofrido. Se tivesse adiado nosso casamento e contado a verdade, eu teria sofrido. Se tivesse pedido espaço, eu teria sofrido. Mas em todas essas opções eu teria podido decidir o que fazer com a minha própria vida.

Minha voz começou a tremer.

Não de fraqueza.

De raiva.

— Você preferiu tirar de mim justamente essa escolha.

Rafael passou as mãos pelo cabelo.

— Eu errei na forma.

— Na forma?

— Eu estava desesperado.

— Desesperado é cancelar um casamento. Desesperado é pegar um avião de madrugada. Desesperado é chorar no hospital. O que você fez foi me submeter a um procedimento experimental sem meu consentimento.

Ele abriu a boca.

Fechou novamente.

— Você não resistiu.

A frase me atingiu de um jeito diferente.

Aproximei-me dele.

— Eu não resisti porque percebi que o homem com quem eu ia me casar já tinha escolhido outra pessoa. Não transforme meu choque em consentimento.

Rafael abaixou os olhos.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

Então ele mudou o assunto para aquilo que mais o preocupava.

— E suas lembranças?

— Não voltaram.

Ele ergueu a cabeça rapidamente.

— Nenhuma?

— Algumas lembranças da minha própria vida continuam normais. Eu lembro dos lugares, de acontecimentos, de decisões minhas. Mas quando você deveria aparecer, existe um vazio.

Rafael ficou pálido.

— Isso pode levar algumas horas.

— Já se passaram mais de doze.

— Talvez alguns dias.

— Talvez.

A maneira como respondi o assustou.

Ele se aproximou.

— Eu posso fazer uma nova sessão. Existem técnicas de reversão. Posso tentar reativar associações…

— Não.

— Mariana, me escuta.

— De jeito nenhum.

Recuei antes que ele chegasse perto.

— Você não vai mexer na minha cabeça outra vez.

Ele ficou parado.

— Eu consigo corrigir.

— Você nem sabia que isso podia acontecer.

— Eu sabia que existia risco.

A sala pareceu ficar mais fria.

— Você sabia?

Rafael percebeu tarde demais o que havia admitido.

Seus olhos desviaram dos meus.

Meu coração bateu forte.

— Quando perguntei naquela noite se eu poderia esquecer você por mais de três meses, você sabia que era possível.

— Era uma possibilidade pequena.

— Mas era possível.

— Mariana…

— E mesmo assim você abriu aquela caixa.

Ele começou a explicar números, protocolos, margem de erro, estudos preliminares.

Eu parei de ouvir.

Durante três meses eu havia tentado imaginar se o Rafael das minhas memórias perdidas era diferente daquele homem.

Talvez o homem que eu amara fosse gentil.

Talvez tivesse cuidado de mim durante anos.

Talvez tivesse me feito feliz.

Isso explicaria por que eu aceitara casar com ele.

Mas nenhuma lembrança boa poderia apagar o que eu estava vendo agora.

Quando alguém que diz amar você conhece o risco e ainda assim decide que pode administrá-lo em seu nome, o problema não é falta de amor.

É falta de respeito.

— Eu quero que você vá embora — falei.

Rafael me encarou.

— Não.

— Essa casa está no meu nome.

— Eu morava aqui.

— Morava.

— Mariana, você não pode decidir tudo isso enquanto está sem memória!

— Posso decidir quem entra na minha casa.

Ele ficou sem reação.

Apontei para as caixas.

— Suas coisas estão aí. Pode levar hoje ou mandar buscar depois.

Rafael se sentou no sofá, como se as pernas não sustentassem mais seu peso.

— E se as lembranças voltarem amanhã?

— Eu lido com isso amanhã.

— E se você lembrar que me ama?

A pergunta doeu mais do que eu esperava.

Respirei fundo.

— Então vou ter que aprender que amar alguém não me obriga a confiar nessa pessoa.

Rafael ficou olhando para mim.

Depois perguntou baixinho:

— Você contou para alguém do laboratório?

— Ainda não.

Ele levantou o rosto.

Percebi o medo.

Aquilo me confirmou outra coisa.

Rafael sabia perfeitamente que havia ultrapassado uma linha profissional.

— Você vai me denunciar?

— Vou relatar exatamente o que aconteceu.

— Mariana, isso pode acabar com minha carreira.

— Não fui eu quem levou um equipamento experimental para casa.

Ele apertou os lábios.

— Camila estava morrendo.

— E isso não me transformava em material de laboratório.

Rafael não discutiu.

Pegou a mala.

Carregou duas das caixas até a porta e parou antes de sair.

— Eu volto amanhã.

— Não volte sem me avisar.

— Você vai lembrar.

— Talvez.

Ele respirou fundo.

— E quando lembrar, vai entender por que fiz isso.

Olhei diretamente para ele.

— Esse é o seu maior erro, Rafael. Você ainda acredita que recuperar minhas lembranças significa recuperar o direito de voltar para a minha vida.

Fechei a porta.

Nos dias seguintes, algumas imagens começaram a surgir.

Não de uma vez.

Eram flashes.

Rafael preparando café.

Rafael segurando minha mão em uma sala de espera.

Rafael rindo quando queimou o jantar.

Rafael me abraçando depois de um dia ruim.

Chorei ao perceber que eu realmente tinha amado aquele homem.

Não era uma fantasia.

Nós tínhamos sido felizes.

Mas junto das lembranças boas, outra memória voltou parcialmente.

Aquela noite.

A caixa.

Minha pergunta.

“E se eu não esquecer você só por três meses?”

O rosto dele hesitando.

Depois a tampa se abrindo.

Foi quando compreendi uma coisa que doeu mais do que ter esquecido.

Eu não precisava recuperar tudo para saber o que fazer.

Com ajuda profissional, registrei formalmente o que havia acontecido junto à instituição responsável pelo laboratório. Não pedi vingança. Não inventei nada. Apenas descrevi o procedimento, o uso fora do ambiente autorizado e a ausência de consentimento informado.

Rafael foi afastado temporariamente das atividades com o projeto enquanto o caso era analisado.

Quando soube, apareceu novamente no prédio.

Dessa vez, não autorizei a entrada.

Ele ficou do lado de fora por quase uma hora.

Depois me ligou.

Atendi.

A voz dele estava quebrada.

— Mariana… por favor.

— O que foi?

— Minhas coisas eu aceito perder. O casamento eu consigo entender. Até o laboratório… eu vou enfrentar.

Ele respirou fundo.

— Mas me diz uma coisa.

Fiquei em silêncio.

Rafael começou a chorar.

— Eu só fiz você me esquecer por três meses… Como você conseguiu me esquecer para a vida inteira?

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Written By

admini

Interior design enthusiast and architectural content curator at Viet Thanh Interior.

Previous Article Next Article