Meu irmão postiço dizia que me odiava — até descobrir meu namoro e transformar o ciúme em ameaça

admini Th8 25, 2026
7 min read 28 views

Parte 3

Na manhã seguinte, Gabriel não apareceu para o café.

Meu padrasto comentou que ele tinha saído cedo para estudar, e minha mãe continuou falando sobre as compras da semana como se nada tivesse acontecido.

Eu mal conseguia engolir.

Durante anos, minha primeira reação diante de qualquer problema tinha sido pensar em como aquilo afetaria minha mãe. Eu escondia desconfortos, engolia humilhações e aceitava coisas que não deveria aceitar porque tinha medo de estragar a felicidade que ela finalmente havia encontrado.

Naquela manhã, percebi o quanto isso tinha se tornado perigoso.

Minha mãe não precisava de uma filha silenciosa.

Precisava de uma filha sincera.

Mesmo assim, ainda não consegui contar.

Eu precisava primeiro entender o que Gabriel queria de mim.

Na faculdade, ele evitou meus olhos durante quase todo o dia. Quando a aula terminou, esperei o corredor esvaziar e fui até ele.

— A gente vai conversar.

— Não tenho nada para falar.

— Eu tenho.

Ele fechou a mochila e tentou passar.

Fiquei na frente.

— Ontem você entrou no meu quarto, segurou meus braços e falou como se tivesse algum direito sobre a minha vida. Quero saber por quê.

O rosto dele endureceu.

— Esquece.

— Não.

— Mariana…

— Não vou esquecer.

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

— Você me tratou mal desde o primeiro dia. Fingiu que não me conhecia na faculdade. Ficou olhando enquanto me humilhavam. Insultou minha mãe. E agora fica com raiva porque eu tenho namorado. Então fala de uma vez.

Gabriel ficou em silêncio.

Pela primeira vez, não havia ironia no rosto dele.

Havia cansaço.

— Quando meu pai disse que ia se casar de novo, eu odiei a ideia.

— Isso eu já percebi.

— Eu achava que vocês iam entrar na nossa casa e mudar tudo. Meu pai estava feliz de um jeito que eu não via havia muito tempo, e eu me senti… substituído.

Cruzei os braços.

— Então decidiu descontar em mim?

Ele baixou os olhos.

— No começo, sim.

A resposta doeu justamente por ser tão simples.

— Pelo menos você admite.

Gabriel apoiou as mãos na mesa.

— Depois ficou diferente.

Eu já imaginava o que vinha.

Mesmo assim, ouvi.

— Eu comecei a prestar atenção em você. Quando você conversava com outras pessoas, me incomodava. Quando alguém chegava perto, me incomodava. Quanto mais eu percebia isso, mais raiva eu sentia.

— De mim?

Ele riu sem humor.

— De mim mesmo.

Balancei a cabeça.

— E resolveu me castigar por um sentimento que era seu.

Gabriel não respondeu.

— Isso não é gostar de alguém — continuei. — Isso é transformar alguém em alvo porque você não sabe lidar com o que sente.

Ele ergueu os olhos.

— Eu sei.

— Sabe agora.

— Eu nunca disse que estava certo.

— Mas fez mesmo assim.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Então perguntei sobre a perseguição na faculdade.

— Você fez alguma coisa?

— Não comecei aquilo.

— Eu não perguntei isso.

Ele respirou fundo.

— Eu ouvi o boato e não corrigi.

Meu estômago apertou.

— Você sabia que era mentira.

— Sabia.

— E deixou todo mundo acreditar.

— Sim.

Senti vontade de chorar, mas não dei a ele essa reação.

— E quando começaram a mexer nas minhas coisas?

Gabriel fechou os olhos por um instante.

— Eu vi algumas vezes.

— E não fez nada.

— Não.

— Até depois do tapa.

Ele assentiu.

— Depois daquele dia, falei com algumas pessoas.

Soltei uma risada amarga.

— Então eu precisava perder a cabeça e te dar um tapa para você lembrar que eu era uma pessoa?

— Não foi isso.

— Foi exatamente isso.

Peguei minha bolsa.

Gabriel segurou meu caminho apenas com a voz.

— Mariana, eu sinto muito.

Parei.

Era a primeira vez que ouvia um pedido de desculpas vindo dele.

Mas não senti alívio.

— Sentir muito não apaga o que aconteceu.

— Eu sei.

— E gostar de mim também não transforma o que você fez em alguma coisa bonita.

Ele empalideceu.

— Eu não queria…

— Você queria controlar.

Não esperei resposta.

Saí.

Naquela tarde, contei ao meu namorado uma parte do que estava acontecendo. Não entrei em todos os detalhes, mas expliquei que a convivência com Gabriel era complicada e que ele tinha reagido muito mal ao nosso relacionamento.

Meu namorado ficou preocupado.

— Quer que eu fale com ele?

— Não.

Respondi imediatamente.

— Isso é entre mim e ele. Eu só quero que você saiba porque não vou mais fingir que está tudo normal.

Foi importante ouvir a mim mesma dizendo aquilo.

Eu não queria outro homem tomando decisões por mim para me proteger de Gabriel.

Queria aprender a me proteger.

Durante os dias seguintes, passei a colocar limites claros.

Não respondia perguntas sobre onde eu estava.

Não permitia que Gabriel entrasse no meu quarto.

Quando ele começava algum comentário sobre meu namorado, eu encerrava a conversa.

Ele parecia irritado, mas respeitou a distância.

Até certa noite.

Minha mãe tinha saído com meu padrasto para jantar. Eu estava na cozinha preparando alguma coisa quando Gabriel entrou.

— Ele veio te buscar hoje.

Nem precisei perguntar de quem falava.

— Veio.

— Você está levando isso a sério?

Continuei cortando legumes.

— Sim.

— Mariana, você mal conhece esse cara.

Coloquei a faca sobre a bancada e me virei.

— Chega.

— Estou só falando…

— Não. Você está tentando voltar ao mesmo comportamento.

Ele ficou quieto.

— Meu relacionamento não é assunto seu.

— Você mora comigo.

— Isso não te dá direito nenhum sobre mim.

— Eu me preocupo.

— Preocupação pergunta se a pessoa está bem. Controle pergunta onde ela estava, com quem estava, quando volta e se pode namorar.

Gabriel passou a mão pelo cabelo.

— Eu estou tentando mudar.

— Então começa aceitando um “não”.

Ele deu dois passos para trás.

Por alguns segundos, achei que acabaria ali.

Então ouvi a porta principal.

Minha mãe e meu padrasto tinham voltado mais cedo.

— O jantar foi péssimo — minha mãe entrou rindo. — A gente desistiu no meio…

Ela parou ao perceber nosso silêncio.

— O que aconteceu?

— Nada — Gabriel respondeu rapidamente.

Dessa vez, eu não concordei.

— Aconteceu, sim.

Minha mãe me encarou.

Meu padrasto olhou para o filho.

Eu estava prestes a falar quando Gabriel interrompeu:

— Mariana, não precisa.

Respirei fundo.

A antiga versão de mim teria recuado.

Teria protegido a felicidade da minha mãe.

Teria fingido.

Eu não queria mais ser aquela pessoa.

— Precisa, sim.

Gabriel ficou tenso.

— Mãe, faz meses que eu escondo coisas de você.

O sorriso dela desapareceu.

Contei sobre a hostilidade dentro de casa.

Sobre ele fingir que não me conhecia.

Sobre o boato.

Sobre os livros.

Sobre o insulto que fizera envolvendo minha mãe.

Meu padrasto ficou pálido.

Minha mãe parecia incapaz de falar.

Então cheguei àquela madrugada.

— Ele entrou no meu quarto depois que descobriu que eu estava namorando. Segurou meus pulsos e tentou me intimidar porque não aceitava meu relacionamento.

— Gabriel? — meu padrasto perguntou, quase sem voz.

O filho não negou.

Minha mãe levou a mão à boca.

— Por quê?

Gabriel encarou o chão.

— Porque eu estava com ciúme.

— Ciúme? — meu padrasto repetiu.

— Eu gosto dela.

O silêncio que tomou conta da cozinha foi sufocante.

Minha mãe olhou para mim.

Depois para ele.

Eu podia ver o choque no rosto dela.

Gabriel finalmente levantou a cabeça.

E, pela primeira vez, disse diante de todos aquilo que vinha tentando transformar em raiva havia meses:

— Eu me apaixonei por ela.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Written By

admini

Interior design enthusiast and architectural content curator at Viet Thanh Interior.

Previous Article