Parte 3
Rafael percebeu a mudança antes mesmo de eu sair do apartamento.
Quando me viu vestida para trabalhar, com uma pasta na mão, apareceu no corredor ainda com a camisa amarrotada da noite anterior.
— Aonde você vai?
— Trabalhar.
— Mariana, não faz isso.
Parei.
— Isso o quê?
— Colocar advogado no meio da nossa vida.
Quase sorri diante da ironia.
— Foi você quem colocou outra mulher no meio da nossa vida. O advogado só vai organizar o que sobrou.
Ele ficou pálido.
Por alguns segundos, tentou encontrar uma resposta. Não encontrou.
Saí sem bater a porta.
No escritório, fiz o possível para manter a rotina. Eu tinha reuniões, propostas para revisar e uma equipe que não precisava carregar meus problemas pessoais. Ainda assim, em vários momentos, minha mão parava sobre o teclado e eu lembrava da frase de Rafael para Camila: nosso casamento tinha sido um arrependimento.
Cinco anos.
Durante cinco anos, eu acreditara que ele apenas era pouco afetuoso.
Agora começava a me perguntar quantas vezes eu havia chamado de “jeito dele” aquilo que, na verdade, era falta de vontade.
A advogada indicada me recebeu no fim da manhã.
Expliquei tudo sem dramatizar. Disse que estava grávida, que queria o divórcio e que pretendia resolver patrimônio, despesas e todas as questões relacionadas ao bebê de maneira responsável.
Ela ouviu atentamente.
— Você tem certeza da decisão?
— Tenho.
— Então vamos trabalhar com fatos. Não com vingança.
Era exatamente o que eu queria.
Eu não pretendia destruir Rafael. Não queria publicar fotografias, mandar mensagens para parentes ou transformar minha dor em espetáculo. Queria sair daquele casamento protegendo o que era meu e, principalmente, construindo uma relação minimamente civilizada em torno da criança que ainda nem tinha nascido.
Passamos por documentos, bens adquiridos durante o casamento, despesas da casa e contas.
Nada revelou um crime escondido.
Nenhuma fortuna secreta apareceu.
Nenhuma prova milagrosa caiu no meu colo.
E, estranhamente, aquilo me fez bem.
Eu não precisava descobrir que Rafael era pior do que já tinha demonstrado para justificar minha saída.
A traição e as mentiras bastavam.
Quando deixei o escritório, havia dezessete chamadas perdidas dele.
Não retornei.
Pouco depois, Camila mandou outra mensagem.
“Eu não quero brigar com você. Só achei que você tinha direito de saber.”
Fiquei olhando para aquelas palavras durante alguns minutos.
Então respondi:
“Por que agora?”
Ela demorou.
“Porque ele me contou da gravidez ontem.”
Meu peito apertou.
Não era uma nova fotografia, uma gravação secreta ou um documento escondido. Era apenas uma informação que tornava o comportamento dele ainda mais cruel.
Camila continuou:
“Quando descobri, perguntei se você sabia sobre nós. Ele disse que você estava sensível e que não era hora de mexer nisso.”
Fechei os olhos.
Sensível.
Era a palavra que ele usava para me diminuir quando eu percebia alguma coisa que não lhe convinha.
Perguntei:
“Você sabia que ele ainda vivia normalmente comigo?”
“Ele dizia que vocês já não eram um casal de verdade.”
Não perguntei mais nada.
Também não insultei Camila.
Ela tinha beijado um homem casado e precisava assumir a própria parte naquela história, mas meu compromisso não era com ela.
Era Rafael quem havia prometido lealdade a mim.
À tarde, ele apareceu no meu escritório.
Minha secretária entrou na sala antes.
— Seu marido está na recepção. Ele disse que precisa falar com você.
Respirei fundo.
— Pode mandar entrar.
Rafael fechou a porta atrás de si.
— Você falou com advogado?
— Falei.
— Meu Deus, Mariana.
Ele passou as duas mãos pelos cabelos.
— Você está levando isso longe demais.
— Você continua dizendo isso como se eu tivesse criado o problema.
— Eu beijei uma pessoa. Foi errado. Eu admiti.
— Você conversou com ela durante meses.
— Conversa.
— Disse que nosso casamento estava acabado.
— Eu estava confuso.
— Disse que se casar comigo foi um arrependimento.
— Eu estava com raiva.
— E disse que só amou ela na vida.
Rafael ficou calado.
Inclinei-me para trás na cadeira.
— Qual dessas frases representa o que você realmente pensa? Porque toda vez que eu mostro uma, você inventa uma circunstância diferente.
Ele puxou a cadeira diante da minha mesa.
— Eu não sei.
A resposta me surpreendeu.
Talvez porque, pela primeira vez, ele não tivesse preparado uma desculpa.
— Não sabe?
— Eu reencontrei a Camila e mexeu comigo. Tá bom? Mexeu. Eu comecei a lembrar de coisas antigas. Da juventude. De quem eu era naquela época.
— E eu virei o quê nessa história?
Ele abaixou os olhos.
— Não foi sobre você.
Eu ri, mas meus olhos arderam.
— Claro que foi. Você estava falando do nosso casamento. Da nossa vida. De mim.
— Eu não queria te machucar.
— Você só não queria que eu descobrisse.
A frase o fez levantar o rosto.
Rafael abriu a boca, mas ficou em silêncio.
Naquele instante, percebi que essa era a diferença.
Arrependimento pelo sofrimento que causamos e medo das consequências são coisas completamente diferentes.
— Eu posso cortar contato com ela — disse ele. — Posso fazer terapia. Posso mudar.
— Talvez devesse mesmo fazer tudo isso.
Os olhos dele se iluminaram por um instante.
— Então você aceita tentar?
— Não.
O brilho desapareceu.
— Estou dizendo que você pode melhorar como pessoa. Isso não significa que eu precise continuar casada com você para assistir ao processo.
Rafael apertou as mãos.
— E o bebê?
— Você será o pai dele independentemente de ser meu marido.
— Eu quero acompanhar tudo.
— E poderá, desde que respeite meus limites.
Ele balançou a cabeça, irritado.
— Parece que você já planejou minha vida inteira.
— Não. Só estou deixando claro que você não vai usar nosso filho para me manter numa relação em que eu não quero mais estar.
Ele saiu sem se despedir.
Naquela noite, quando voltei para casa, encontrei Rafael sentado na sala.
Sobre a mesa estavam a aliança dele e uma cópia impressa da minuta do acordo.
— Sua secretária mandou isso?
— Não. Minha advogada enviou para o seu e-mail.
Ele tocou o papel com dois dedos.
— Você realmente quer dividir nossa vida em cláusulas?
Tirei os sapatos e me sentei na poltrona oposta.
— Nossa vida já foi dividida quando você começou a construir uma versão dela para outra mulher.
Ele respirou fundo.
— Eu falei com Camila.
Meu corpo ficou tenso, mas não demonstrei.
— E?
— Acabou.
— Isso é problema de vocês.
— Não fala assim.
— Como você quer que eu fale?
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Ela disse que mandou as mensagens porque ficou com raiva quando descobriu da gravidez.
Eu já imaginava.
Não fiquei surpresa.
Camila não tinha me procurado por solidariedade pura. Havia mágoa e interesse naquela decisão.
Ainda assim, isso não alterava o conteúdo das mensagens.
— Então vocês dois mentiram um para o outro — respondi. — Ela acreditou que nosso casamento estava praticamente terminado, e eu acreditava que meu marido era fiel. Pelo visto, você conseguiu decepcionar duas mulheres ao mesmo tempo.
— Não precisa me tratar como um monstro.
— Eu não estou tratando você como monstro. Estou tratando você como adulto.
Ele ficou em silêncio.
Depois empurrou a minuta na minha direção.
— Eu não vou assinar agora.
— Tudo bem.
Ele pareceu surpreso.
— Tudo bem?
— Você tem direito a analisar com seu advogado.
— E se eu não aceitar o divórcio?
Encarei-o.
— Você pode dificultar o caminho. Não pode me obrigar a querer continuar casada.
A certeza da minha voz o atingiu.
Pela primeira vez, vi medo real no rosto dele.
Não medo de Camila.
Não medo de exposição.
Medo de que eu estivesse, de fato, saindo do alcance dele.
Nos dias seguintes, Rafael mudou completamente de comportamento.
Começou a chegar cedo.
Perguntava se eu tinha comido.
Queria acompanhar consultas.
Comprou flores.
Tentou preparar o café que eu gostava.
Cinco anos antes, talvez aquilo tivesse me derretido.
Agora, cada gesto me deixava triste.
Não porque fossem falsos necessariamente, mas porque haviam surgido apenas quando ele percebeu que poderia me perder.
Uma noite, ele colocou as flores sobre a mesa e perguntou:
— Você não sente nada vendo que estou tentando?
Olhei para ele.
— Sinto.
Rafael esperou.
— Sinto pena de perceber que você sabia fazer tudo isso o tempo inteiro.
Ele perdeu o sorriso.
Continuei:
— Você simplesmente nunca achou necessário enquanto tinha certeza de que eu ficaria.
Na manhã seguinte, fomos juntos à primeira consulta de acompanhamento da gravidez desde a discussão.
Rafael ficou sentado ao meu lado na sala de espera, quieto.
Quando ouvimos o coração do bebê, seus olhos se encheram de lágrimas.
Os meus também.
Por alguns minutos, não existiram divórcio, Camila nem ressentimento.
Existia apenas aquela pequena vida crescendo dentro de mim.
Na saída, Rafael segurou meu braço com delicadeza.
— Isso não significa nada para você?
Olhei para ele.
— Significa tudo.
Ele respirou aliviado cedo demais.
— Por isso mesmo eu não vou continuar num casamento infeliz só para fingir que nosso filho tem uma família perfeita.
A mão dele caiu ao lado do corpo.
Naquela tarde, meu advogado recebeu a primeira resposta formal do representante de Rafael.
Ele aceitava discutir a divisão dos bens.
Aceitava morar separado.
Aceitava organizar as responsabilidades relacionadas ao bebê.
Mas havia uma condição que Rafael insistia em colocar antes de assinar qualquer acordo definitivo:
ele queria seis meses para tentar me fazer desistir do divórcio.
Quando li aquilo, percebi que ainda faltava uma última coisa para ele entender.
Meu casamento não estava em período de experiência.
Minha decisão também não.
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