Parte 3
Rafael continuou parado diante da porta.
Talvez esperasse que eu chorasse, gritasse ou começasse a negociar. Durante cinco anos, sempre fui aquela que procurava conversar antes que qualquer discussão piorasse. Naquele momento, porém, não tinha mais nada para negociar.
— Sai da frente.
— Não até você me explicar quando decidiu isso.
— No dia em que você me contou que ia se casar com outra mulher e esperava que eu continuasse sua noiva.
Ele passou a mão pelo cabelo, claramente nervoso.
— Não é assim.
— Então explica de um jeito que faça sentido.
Rafael abriu a boca, mas permaneceu em silêncio.
Fiz uma pergunta simples:
— Você dormiu com Isabela enquanto estava comigo?
Ele desviou os olhos.
Aquilo bastou.
— Foi uma vez — murmurou. — Ela estava fragilizada, a gente tinha bebido, conversamos sobre coisas antigas…
— Para.
Minha voz saiu baixa.
— Não transforme sua decisão em acidente.
Rafael se aproximou.
— Eu sei que errei. Mas existe uma criança agora.
— E você deve assumir seu filho.
— Então você entende!
— Entendo assumir um filho. Não entendo exigir que eu espere enquanto você se casa com a mãe dele e depois volte como se eu fosse um endereço onde deixou suas coisas.
Ele ficou me olhando.
Parecia que só naquele instante havia escutado a própria proposta pela primeira vez.
Rafael sentou na beirada da cama.
— Eu achei que você fosse compreender.
— Você achou que eu fosse aceitar.
Ele levantou os olhos.
— É diferente?
— Completamente.
Na porta, ouvi um ruído.
Isabela estava ali.
Não sabia há quanto tempo escutava.
Ela colocou a mão na barriga e olhou primeiro para mim, depois para Rafael.
— Então é verdade? — perguntou. — Você realmente pretende voltar para ela depois?
Rafael se levantou.
— Isabela, a gente já conversou sobre isso.
— Você disse que precisava de tempo.
— E preciso.
Ela soltou uma risada nervosa.
Por alguns segundos, quase senti pena dela.
Quase.
Então me lembrei de como havia usado minha infância para me ferir e de como sabia, desde o início, que Rafael estava noivo.
— Vocês resolvam isso entre vocês — falei. — Eu saí dessa história.
Peguei os documentos.
Rafael tentou tocar meu braço novamente.
— Camila, não toma uma decisão definitiva com raiva.
— Não estou com raiva.
E aquilo era verdade.
A raiva tinha vindo primeiro. Depois vieram a vergonha, o choque e a dor.
Agora havia clareza.
— Você foi infiel. Engravidou outra mulher. Decidiu casar com ela e ainda planejou meu futuro sem me perguntar se eu queria fazer parte dele. Não existe mais noivado.
Retirei a aliança fina que usava havia três anos.
Coloquei na palma da mão dele.
Rafael ficou olhando para o anel como se eu tivesse acabado de quebrar alguma coisa que ainda acreditava possuir.
— Camila…
— Acabou.
Passei por Isabela sem dizer mais nada.
Minha mãe me esperava na cozinha.
Quando viu que eu estava sem a aliança, entendeu.
Não fez perguntas.
Apenas colocou uma xícara de café diante de mim e sentou ao meu lado.
— Dói?
— Muito.
Helena segurou minha mão.
— Então não precisa fingir que não dói.
Chorei ali.
Não pela primeira vez.
Mas pela primeira vez sem desejar que Rafael aparecesse para consertar aquilo.
No dia seguinte, fomos até uma advogada indicada pelo serviço de orientação jurídica da cidade. Minha mãe não queria dinheiro de Roberto, mas eu queria que ela soubesse quais eram seus direitos antes de atravessar o mundo.
Helena contou quase trinta anos de vida em poucas frases.
Casa compartilhada.
Contas pagas em conjunto.
Minha criação.
Anos cuidando de Roberto durante períodos em que ele ganhava pouco.
Testemunhas que sempre os conheceram como casal.
A advogada ouviu tudo e explicou que ausência de casamento formal não apagava automaticamente décadas de convivência. Se Helena quisesse, poderia buscar o reconhecimento e a dissolução daquela união, além de discutir aquilo que tivesse sido construído pelos dois.
Minha mãe ficou espantada.
— Mas está tudo no nome dele.
— Isso não significa que sua história desapareceu — respondeu a advogada.
Ao sairmos, Helena ficou parada na calçada.
— Eu não quero brigar por casa.
— Então não briga.
— Mas também não quero que ele passe o resto da vida dizendo que eu fui só uma mulher que ficou esperando por ele.
Segurei a mão dela.
— A senhora decide.
Ela demorou um pouco.
— Quero deixar registrado que eu existi naquela vida.
Voltamos ao escritório.
Helena autorizou a abertura do procedimento.
Não era vingança.
Era a primeira decisão tomada exclusivamente em nome dela mesma.
Naquela tarde, Roberto ficou sabendo.
Ele apareceu em nossa casa antes do jantar.
— Você procurou advogada?
Minha mãe estava dobrando uma blusa.
— Procurei.
— Depois de tudo que fiz por você?
Helena levantou os olhos.
— O que exatamente você fez por mim, Roberto?
Ele apontou para a casa.
— Você viveu aqui.
— E trabalhei aqui.
— Eu sustentei essa família.
— E eu cozinhei, costurei, cuidei de você doente, criei nossa filha e fiquei ao seu lado quando ninguém sabia seu nome.
Roberto ficou vermelho.
— Agora resolveu contar cada prato que lavou?
Minha mãe respirou fundo.
— Não. Resolvi parar de deixar você contar minha vida como se eu não tivesse feito nada.
Ele olhou para mim.
— Foi você que colocou isso na cabeça dela.
Antes que eu respondesse, Helena se levantou.
— Não culpe minha filha pela primeira decisão que eu tomei sozinha em muitos anos.
O silêncio foi pesado.
Roberto parecia incapaz de reconhecer aquela mulher.
Talvez porque tivesse passado décadas acreditando que ela nunca o enfrentaria.
— Você quer dinheiro?
— Quero respeito.
— E acha que vai conseguir isso num processo?
— Não. O respeito eu estou recuperando indo embora.
Foi então que ele percebeu as malas.
Roberto olhou para mim.
Depois para minha mãe.
— Indo embora para onde?
Helena não respondeu.
Meu pai caminhou até mim.
— Camila.
— Não interessa.
— Eu sou seu pai.
— E ela foi sua companheira por quase trinta anos. Isso não impediu o senhor de tratá-la como vergonha.
Ele endureceu a expressão.
— Vocês estão fazendo isso para estragar meu casamento.
Minha mãe soltou uma respiração cansada.
— Seu casamento não tem mais nada a ver comigo.
Roberto ficou imóvel.
Eu nunca tinha visto minha mãe falar com ele daquele jeito.
— Eu amei você — ela continuou. — Talvez uma parte de mim ainda ame o homem que você foi. Mas eu não reconheço o homem que está na minha frente.
Ele saiu sem se despedir.
Naquela noite, Rafael ligou onze vezes.
Não atendi.
Na décima segunda, desliguei o celular.
Nos dois dias seguintes, terminamos tudo o que precisava ser feito.
Entreguei minha carta de desligamento no hospital.
Separei meus livros.
Minha mãe deixou algumas ferramentas de costura para vizinhas que haviam trabalhado com ela durante anos.
Vendemos o que não conseguiríamos levar.
O restante cabia em duas malas para cada uma.
O casamento de Roberto aconteceria no sábado ao meio-dia.
Nosso primeiro trecho de viagem começaria às seis da manhã.
Na sexta-feira, começou a chover.
Não era uma chuva leve.
A água bateu no telhado durante toda a madrugada.
Às cinco, enquanto fechava a última mala, ouvi minha mãe perguntar:
— Ainda dá tempo de desistir?
Olhei para ela.
Helena sorria.
— Não estou dizendo que quero desistir. Só quero saber se você tem medo.
Eu ri pela primeira vez em vários dias.
— Estou morrendo de medo.
— Eu também.
Pegamos nossas malas.
Antes de sair, minha mãe olhou para a casa.
Nenhuma despedida.
Nenhuma fotografia.
Nenhum bilhete para Roberto.
Ela simplesmente fechou a porta.
Na estrada, a chuva piorou.
Nosso carro antigo começou a falhar numa subida e fomos obrigadas a parar perto de um ponto onde ônibus intermunicipais costumavam passar. Conseguimos retirar as malas antes de o motor morrer de vez.
Um ônibus apareceu quase quarenta minutos depois.
O motorista aceitou nos levar até a rodoviária de onde seguiríamos para Florianópolis.
Minha mãe se sentou junto à janela.
O carro ficou para trás.
Pouco depois das nove, a chuva caiu ainda mais forte sobre a serra.
Às onze e vinte, parte da encosta cedeu.
Terra, pedras e árvores cobriram o trecho onde nosso carro havia ficado.
E quando alguns moradores reconheceram o veículo de Helena sob a lama, ninguém sabia que nós duas já estávamos quilômetros adiante.
Ao meio-dia, enquanto meu pai se preparava para dizer “sim” diante de centenas de convidados, homens cobertos de barro abriram as portas do salão.
— Roberto!
A música parou.
— Houve um deslizamento!
Rafael, que estava entre os convidados, se levantou.
O homem mal conseguiu recuperar o fôlego antes de completar:
— Encontraram o carro de Helena e Camila debaixo da terra.
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