Parte 3
Por alguns segundos, Rafael ficou parado diante de mim, como se eu tivesse pronunciado uma palavra proibida.
— Divórcio?
O espanto na voz dele quase me fez rir.
Ele podia beijar outra mulher no meio da rua, dormir com ela, viajar com ela e contar detalhes do nosso casamento. Mas era a palavra “divórcio” que parecia absurda.
— Você está falando isso porque está com raiva — disse ele. — Amanhã você vai pensar diferente.
— Talvez amanhã eu pense com mais calma. Mas não vou esquecer.
Peguei um travesseiro e um cobertor no quarto e coloquei no sofá.
Rafael olhou para aquilo com indignação.
— Você está me expulsando do meu próprio quarto?
— Estou impedindo que o homem que acabou de admitir que dorme com outra mulher deite ao meu lado.
— Fala sério, Mariana.
— Estou falando muito sério.
Naquela noite, tranquei a porta do quarto.
Não dormi.
Passei horas sentada na cama, olhando para o teto, enquanto o celular parecia pesar nas minhas mãos. Em alguns momentos eu queria abrir todas as fotos novamente, como se precisasse continuar me machucando para acreditar que aquilo tinha acontecido.
Em outros, eu só queria apagar tudo.
Não fiz nenhuma das duas coisas.
Organizei as imagens, os vídeos e as mensagens numa pasta, fiz cópias e deixei o celular de lado.
Não porque eu tivesse um plano de vingança.
Eu simplesmente não queria permitir que, dali a alguns dias, Rafael transformasse o que tinha acontecido numa lembrança confusa e dissesse que eu estava exagerando.
Na manhã seguinte, ele já tinha saído quando abri a porta.
Sobre a mesa havia uma xícara de café e um bilhete.
“Quando você se acalmar, a gente conversa.”
Amassei o papel.
Durante anos, eu tinha confundido aquele jeito tranquilo de Rafael com maturidade. Só naquele momento percebi quantas vezes a calma dele significava apenas uma certeza: a de que, no fim, eu cederia.
Peguei os documentos que tínhamos em casa e comecei pelo básico.
Certidão de casamento.
Contratos.
Documentos do apartamento.
Papéis relacionados aos bens adquiridos ao longo dos anos.
Extratos que eu já tinha acesso.
Não tirei dinheiro de conta conjunta, não escondi patrimônio e não fiz nenhuma movimentação precipitada. Eu não queria transformar minha dor numa decisão que pudesse se voltar contra mim depois.
Marquei uma conversa com uma advogada de família.
No escritório, contei os fatos sem enfeitar nada.
Quando cheguei à parte em que Rafael dizia que não queria acabar com o casamento, mas também se recusava a dizer que terminaria com Isabela, minha própria voz falhou.
A advogada esperou alguns segundos antes de responder.
— Antes de qualquer decisão patrimonial, você precisa saber exatamente o que existe, como foi adquirido e sob qual regime vocês se casaram. Não assine nada que ele apresentar sem entender. E guarde as comunicações que recebeu.
Assenti.
— Eu não quero destruir o Rafael.
Ela me encarou.
— Então não destrua. Mas também não se destrua para protegê-lo.
Aquela frase ficou na minha cabeça durante todo o caminho de volta.
Quando entrei no apartamento, Rafael estava me esperando.
A primeira coisa que perguntou foi:
— Onde você estava?
Coloquei a bolsa sobre a mesa.
— Conversando com uma advogada.
O rosto dele endureceu.
— Você realmente fez isso?
— Eu disse que faria.
Ele começou a andar pela sala.
— Mariana, você está transformando um problema pessoal numa guerra.
— Não. Estou me informando.
— Informando sobre quê? Você acha que eu vou deixar você sem nada?
A pergunta me feriu de uma maneira inesperada.
— Interessante você dizer “deixar você”. Como se tudo que existe aqui tivesse aparecido porque você resolveu me dar.
— Não distorce minhas palavras.
— Eu não preciso distorcer mais nada, Rafael. Você está fazendo isso sozinho.
Ele respirou fundo e tentou se controlar.
— A Aurora, o hotel, nossos investimentos… tudo isso é complicado. Se você entrar nessa de advogado, vai virar um inferno.
— Então deveria ter pensado nessa complexidade antes de criar uma segunda vida.
Rafael ficou em silêncio.
Pela primeira vez desde a noite anterior, não havia resposta pronta.
Fui até o quarto e comecei a separar algumas roupas.
Ele apareceu na porta.
— O que você está fazendo?
— Vou passar alguns dias em outro lugar.
— Essa também é uma orientação da sua advogada?
— Essa é uma decisão minha.
Ele segurou a maçaneta.
— Esta é sua casa.
— Eu sei.
— Então fica.
Fechei a mala.
— Você não pode querer que eu fique só porque agora percebeu que minhas decisões também têm consequências.
Rafael passou a mão pelos cabelos.
— Eu errei.
Parei.
Era a primeira vez que ele dizia aquilo de forma direta.
Por um segundo, alguma coisa dentro de mim quis se agarrar àquelas duas palavras.
Cinco anos não desaparecem em uma noite. O amor também não obedece a um interruptor.
— E agora? — perguntei.
Ele abriu a boca, mas demorou para falar.
— Eu preciso organizar minha cabeça.
A esperança morreu antes mesmo de nascer.
— Você ainda não consegue dizer que vai terminar com ela.
— Não é tão simples.
— É muito simples. Você só não quer escolher porque sempre achou que poderia ter as duas coisas.
O celular dele vibrou.
Rafael olhou rapidamente para a tela e virou o aparelho para baixo.
Não precisei perguntar quem era.
O gesto respondeu.
Peguei minha mala.
Ele ficou na minha frente.
— Não vai embora desse jeito.
— De que jeito você queria que eu fosse? Sorrindo?
— Mariana, a gente tem uma vida.
— Tinha.
Ele segurou meu braço, não com força, mas como se quisesse impedir que aquela conversa se tornasse definitiva.
— Eu amo você.
Olhei para a mão dele no meu braço.
Depois para o rosto dele.
— Talvez você ame o que eu represento. A casa pronta. A pessoa que conhece seus defeitos. A mulher que esteve ao seu lado quando você não tinha nada. A estabilidade.
Ele soltou meu braço lentamente.
— Isso não é justo.
— Justo foi o que você fez comigo?
Rafael baixou a cabeça.
Saí do apartamento sem olhar para trás.
Passei alguns dias na casa de uma amiga antiga. Não contei detalhes para quase ninguém. Eu não queria transformar minha separação em espetáculo nem ouvir frases sobre “dar outra chance” antes de conseguir ouvir meus próprios pensamentos.
Rafael mandava mensagens todos os dias.
No primeiro, insistiu que precisávamos conversar.
No segundo, disse que eu estava exagerando.
No terceiro, pediu desculpas.
No quarto, perguntou quando eu voltaria.
No quinto, escreveu apenas:
“Não reconheço você.”
Fiquei olhando para a mensagem durante alguns minutos antes de responder.
“Talvez porque você tenha passado tempo demais olhando para outra pessoa.”
Depois disso, ele ficou em silêncio.
Isabela, por outro lado, não ficou.
Ela me mandou outra mensagem.
“Você não precisa dificultar. Se acabou, acabou.”
Dessa vez não senti náusea.
Senti uma espécie de clareza.
Respondi:
“Você está discutindo com a pessoa errada. Meu casamento era com ele. As decisões que eu preciso tomar são sobre a minha vida, não sobre você.”
Ela visualizou e não respondeu.
Na semana seguinte, Rafael pediu que nos encontrássemos.
Aceitei conversar numa cafeteria perto do escritório da advogada.
Quando cheguei, ele já estava sentado.
Parecia cansado.
Não era mais o homem irritado da noite em que eu descobri tudo. Também não era o marido carinhoso das minhas lembranças.
Era simplesmente Rafael, um homem que tinha feito escolhas e agora começava a perceber que não controlava todas as consequências.
— Você falou com a advogada de novo? — perguntou.
— Falei.
Ele mexeu na xícara.
— Eu queria pedir que a gente resolvesse isso entre nós.
— Podemos resolver de forma civilizada. Mas isso não significa resolver sem orientação.
— Você não confia em mim?
A pergunta saiu tão naturalmente que eu fiquei alguns segundos sem acreditar.
— Você está realmente me perguntando isso?
Rafael fechou os olhos.
— Tá bom. Foi uma pergunta idiota.
Tirei uma pasta da bolsa.
Não havia nenhuma surpresa secreta ali.
Nenhuma prova caída do céu.
Apenas uma relação organizada do que eu sabia que tínhamos construído durante o casamento e dos documentos que ainda precisavam ser analisados corretamente.
— Eu quero uma divisão justa — disse. — Não quero mais do que é meu. Mas também não vou abrir mão do que me pertence para facilitar sua vida.
Ele passou os olhos pelas páginas.
Sua expressão ficou cada vez mais tensa.
— Você incluiu a Aurora.
— Incluí tudo que precisa ser avaliado.
— E o hotel.
— Também.
Ele fechou a pasta com força.
— Você está tentando arrancar metade da minha vida.
A frase me atingiu.
Mas, dessa vez, não me desmontou.
Inclinei-me sobre a mesa e olhei diretamente para ele.
— Sua vida? Rafael, foi exatamente esse o seu problema. Em algum momento, você começou a olhar para tudo que construímos juntos e passou a chamar de “minha vida”. A empresa era sua. O hotel era seu. A casa era sua. O casamento deveria esperar por você. E eu deveria continuar ali, quieta, porque também tinha virado uma coisa que você considerava sua.
Ele ficou vermelho.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi assim que você viveu.
Rafael respirou fundo.
— Você não vai tocar na Aurora nem no hotel.
Fechei a bolsa devagar.
Naquele momento, percebi que a conversa finalmente tinha chegado ao ponto que ele mais temia.
Não era perder Isabela.
Era perder o direito de decidir sozinho.
Levantei-me.
— Eu não estou tentando pegar o que é seu, Rafael. Estou protegendo o que também é meu.
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