Meu chefe me dava presentes após cada encontro fracassado, até perguntar o nome da mulher que poderia acabar com tudo

admini Th8 20, 2026
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Parte 3

Naquela noite, não consegui dormir.

Espalhei sobre a cama tudo o que Rafael havia me dado durante aqueles meses. A bolsa, os sapatos, a pulseira, o colar, as caixas de cosméticos. A chave do Mini Cooper ficou no centro, brilhando sob a luz do abajur como se estivesse me acusando.

Até então, eu tinha transformado cada presente em uma piada particular. Um prêmio pelas horas extras. Uma compensação por lidar com mulheres chorando, restaurantes constrangedores e comentários absurdamente sinceros.

Depois da conversa no carro, nada parecia tão simples.

Às sete da manhã, coloquei as peças menores dentro de duas bolsas grandes. Separei documentos, chave do carro e tudo que ainda tinha embalagem. Eu não sabia se estava devolvendo por orgulho, culpa ou medo.

Provavelmente pelos três.

Cheguei ao escritório antes de Rafael.

Quando ele apareceu, encontrou as bolsas sobre a mesa da sala dele.

Parou na porta.

— O que é isso?

— Seus presentes.

O olhar dele passou lentamente pelas caixas.

— Eu sei o que são.

— Então facilita.

Rafael tirou o paletó e deixou sobre a cadeira.

— Eu não pedi para você devolver.

— Você disse que eu podia.

— Poder e precisar são coisas diferentes.

Mantive as mãos unidas diante do corpo para esconder o nervosismo.

— Depois do que você falou ontem, não consigo continuar com essas coisas como se fossem simples presentes profissionais.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Nunca foram profissionais.

Aquela frase me atingiu com mais força do que eu esperava.

— É justamente esse o problema.

Rafael se aproximou da mesa, mas manteve distância.

— Camila, eu não quero comprar você.

— Eu sei.

— Tem certeza?

— Tenho. Mas eu também não quero olhar para cada bolsa e ficar me perguntando quando você começou a gostar de mim, se eu estava aceitando sem perceber ou se todo mundo em volta percebeu antes de mim.

A expressão dele mudou.

Não de raiva.

De desconforto.

Foi estranho ver Rafael, o homem que sempre tinha uma resposta afiada para qualquer pessoa, incapaz de encontrar uma frase imediatamente.

— Não foi de uma hora para outra — disse enfim.

Meu coração acelerou.

— Então quando foi?

Ele desviou os olhos para a janela.

— Não sei apontar um dia.

— Rafael.

— Estou falando sério.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Talvez tenha começado quando você passou uma madrugada comigo no escritório durante a negociação com o grupo de Curitiba e, às quatro da manhã, me obrigou a comer porque eu estava há mais de dez horas sem levantar da cadeira. Talvez quando minha mãe ficou internada por dois dias para fazer exames e você apareceu no hospital mesmo sem eu pedir. Ou talvez antes disso.

Esses episódios não eram grandes declarações de amor. Para mim, tinham sido apenas partes do trabalho e de uma convivência de três anos.

Para ele, aparentemente, não.

— E os encontros? — perguntei.

Rafael soltou o ar devagar.

— Minha mãe insistia. Eu aceitava porque não tinha motivo para discutir com ela sobre algo que eu mesmo não sabia como resolver.

— Você podia simplesmente ter recusado.

— Podia.

— Então por que não recusou?

Ele me encarou.

— Porque você organizava todos.

Aquilo me deixou ainda mais confusa.

— Isso não faz sentido.

— Para você, talvez não.

Rafael passou a mão pelo rosto.

— Eu sabia que você estaria lá. Sabia que no final da noite voltaríamos no mesmo carro. E, por mais ridículo que pareça agora, aquilo virou uma desculpa para passar algumas horas com você fora do escritório.

Fiquei encarando-o.

— Você está dizendo que foi a encontros com outras mulheres para ficar perto da sua assistente?

Ele fechou os olhos por um segundo.

— Quando você coloca dessa forma, parece tão estúpido quanto realmente foi.

Apesar da tensão, quase ri.

Quase.

— E insultar as mulheres fazia parte do plano?

— Não.

— Ainda bem.

— Eu apenas não tinha interesse nelas.

— Falta de interesse não justifica humilhar ninguém.

A frase saiu mais firme do que eu esperava.

Rafael não tentou se defender.

— Eu sei.

Aquilo me surpreendeu.

— Sabe?

— Depois de ontem, pensei nisso.

Ele puxou a cadeira e se sentou.

— Eu sempre tratei sinceridade como se fosse uma licença para dizer qualquer coisa. Não é. Algumas daquelas mulheres foram arrogantes, outras claramente não combinavam comigo, mas isso não me dava o direito de atacá-las.

Fiquei em silêncio.

Pela primeira vez, ele parecia menos preocupado em estar certo do que em entender o próprio comportamento.

— Então o que acontece agora? — perguntou.

Olhei para as bolsas.

— Agora eu devolvo tudo.

— O carro também?

— Principalmente o carro.

— Você usa para trabalhar.

— Posso usar táxi, aplicativo, metrô, ônibus. Milhões de pessoas sobrevivem.

Ele quase sorriu.

— Você odeia ônibus.

— Não mude de assunto.

Rafael ergueu as mãos em rendição.

— Certo.

Respirei fundo.

— E preciso de outra coisa.

— O quê?

— Distância.

A pequena mudança no rosto dele me fez sentir culpada, mas continuei.

— Você é meu chefe. Eu trabalho diretamente com você. Até ontem eu nem sabia que existia alguma coisa além disso. Se eu tentar descobrir o que sinto enquanto continuo recebendo presentes caros e dependendo profissionalmente de você, nunca vou saber se estou sendo sincera comigo mesma.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Quanto tempo?

— Não sei.

— Uma semana?

— Rafael.

— Um mês?

— Isso não é negociação de contrato.

Ele apertou os lábios.

— Para mim seria mais fácil se fosse.

Eu sabia.

Controle era a língua materna dele.

— Vou conversar com Recursos Humanos — continuei. — Quero verificar se existe possibilidade de mudar de área.

Ele se levantou imediatamente.

— Você quer sair da minha equipe?

A reação dele foi tão rápida que finalmente entendi uma coisa.

Rafael estava com medo.

Não de perder uma funcionária.

De me perder.

— Temporariamente, talvez definitivamente. Ainda não sei.

— Camila…

— Você precisa deixar que essa decisão seja minha.

Ele parou.

A mandíbula ficou tensa, mas ele assentiu.

— Certo.

Peguei as bolsas.

Antes de sair, ele chamou:

— Camila.

Olhei para trás.

— Os presentes foram dados a você. Não quero de volta.

— Eu quero devolver.

— Então vou respeitar.

Hesitei.

— Obrigada.

Ele apontou para a pulseira que ainda estava no meu pulso.

Só então percebi que tinha esquecido de tirá-la.

Meu rosto esquentou.

Comecei a abrir o fecho.

— Essa pode ficar — disse ele.

— Rafael…

— Não como presente do seu chefe.

Parei.

— Então como quê?

O olhar dele suavizou.

— Como lembrança de que, em algum momento, mesmo fazendo tudo errado, eu tentei demonstrar alguma coisa.

Não consegui responder.

Tirei a pulseira.

Coloquei sobre a mesa.

— Se algum dia eu quiser uma lembrança sua, prefiro escolher depois de saber o que você representa na minha vida.

Dessa vez, ele não discutiu.

Saí.

Nos dias seguintes, nossa rotina mudou completamente.

Rafael parou com os encontros.

Dona Helena ligou duas vezes perguntando se eu sabia o motivo. Eu respondi apenas que o filho dela havia decidido dar um tempo.

Também notei outra mudança.

Ele começou a pedir que outros diretores revisassem apresentações que antes passavam sempre por mim. Parou de me mandar mensagens depois do horário. E nunca mais deixou caixas diante da porta do meu apartamento.

Era exatamente o espaço que eu tinha pedido.

E, estranhamente, senti falta dele.

Não dos presentes.

Dele.

Senti falta de Rafael reclamando que eu colocava reuniões demais na agenda. De encontrá-lo segurando uma xícara de café que eu havia deixado na mesa. Das discussões sobre relatórios. Até das respostas secas que me irritavam.

Na sexta-feira, Recursos Humanos me ofereceu uma vaga na área de planejamento estratégico.

O cargo era bom.

Salário maior.

Outro gestor.

Aceitei.

Quando comuniquei a Rafael, ele ficou em silêncio por tanto tempo que precisei perguntar:

— Você ouviu?

— Ouvi.

— Começo na próxima segunda.

Ele assentiu.

— É uma boa oportunidade.

Eu esperava uma tentativa de me convencer a ficar.

Ela não veio.

— Só isso?

Rafael me olhou.

— Você pediu para essa decisão ser sua.

Meu peito apertou.

— Pedi.

— Então não vou transformar isso numa escolha entre sua carreira e o que eu sinto.

Foi naquele instante que alguma coisa dentro de mim virou.

Durante semanas eu acreditara que Rafael gostava de controlar tudo.

Mas, quando realmente importava, ele estava deixando que eu fosse embora.

Naquela noite, Beatriz me ligou.

— Sua mãe me contou que você mudou de setor.

— Minha mãe precisa aprender o significado da palavra privacidade.

Beatriz riu.

Depois ficou séria.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você continua achando que estava triste porque perdeu os presentes?

Olhei para o colar guardado numa caixa que eu ainda não tinha conseguido mandar de volta porque Rafael se recusara a receber a entrega.

— Não.

— Ótimo.

— Isso não significa que eu saiba o que fazer.

— Não precisa saber agora.

Ela fez uma pausa.

— Mas vou te contar uma coisa que aconteceu naquele jantar. Quando perguntei a Rafael o que ele procurava numa mulher, ele não descreveu aparência, família ou profissão.

Meu coração acelerou.

— O que ele disse?

— Disse que queria alguém que não tivesse medo de contrariá-lo.

Fechei os olhos.

Beatriz continuou:

— Depois contou, sem perceber, sobre uma mulher que corrigia a agenda dele, brigava quando ele esquecia de comer e dizia que o gosto dele para gravatas era deprimente.

Levei a mão à testa.

— Meu Deus.

— Pois é.

— Por que você não falou isso antes?

— Porque precisava descobrir sozinha.

Na segunda-feira, levei minhas coisas para o novo andar.

Antes de sair definitivamente da antiga sala, parei diante da porta de Rafael.

Bati.

— Entre.

Ele estava trabalhando.

Coloquei sobre a mesa apenas a chave reserva do escritório.

— Então é oficial — disse.

— É.

Ele pegou a chave.

— Boa sorte, Camila.

Aquilo deveria ter sido o fim daquela conversa.

Mas permaneci ali.

Rafael percebeu.

— Aconteceu alguma coisa?

Respirei fundo.

— Sim.

— O quê?

— Agora você não é mais meu chefe direto.

Ele ficou imóvel.

Meu coração estava tão acelerado que quase doía.

— Camila…

— Não termine a frase.

Aproximei-me um passo.

— Eu ainda não sei exatamente o que vai acontecer entre nós. Mas sei uma coisa.

— Qual?

Olhei diretamente para ele.

— Se você marcar outro encontro arranjado, dessa vez eu não vou torcer para dar errado por causa de uma bolsa.

Rafael não desviou os olhos.

— Então por quê?

Engoli em seco.

— Porque agora eu sei que sentiria ciúme.

O silêncio que veio depois foi tão intenso que ouvi o relógio da parede.

E, pela primeira vez desde que o conheci, Rafael ficou completamente sem resposta.

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admini

Interior design enthusiast and architectural content curator at Viet Thanh Interior.

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