Meu chefe me dava presentes após cada encontro fracassado, até perguntar o nome da mulher que poderia acabar com tudo

admini Th8 20, 2026
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Parte 4

Rafael levantou tão depressa que a cadeira deslizou alguns centímetros para trás.

— Repete.

Cruzei os braços, tentando esconder o nervosismo.

— Não.

— Camila.

— Você ouviu perfeitamente.

— Quero ter certeza de que não estou imaginando.

Olhei para aquele homem que conseguia discutir contratos milionários sem piscar, mas parecia incapaz de acreditar numa frase simples.

— Eu disse que sentiria ciúme.

Rafael ficou alguns segundos me observando.

Então perguntou:

— Isso significa que posso convidar você para jantar?

A simplicidade da pergunta me desmontou.

Talvez porque, pela primeira vez, ele não estivesse decidindo nada por mim.

— Pode.

Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.

— Hoje?

— Não.

O sorriso desapareceu.

— Amanhã?

— Também não.

— Camila…

Acabei rindo.

— Sexta-feira.

— Por que sexta?

— Porque eu comecei num cargo novo hoje, tenho trabalho acumulado e não vou reorganizar minha vida inteira só porque você finalmente aprendeu a fazer um convite normal.

Rafael inclinou a cabeça.

— Justo.

Antes que eu saísse, acrescentei:

— E existe uma condição.

— Qual?

— Nenhum presente caro.

Ele franziu a testa.

— Posso pagar o jantar?

— Pode.

— Posso buscar você?

— Pode.

— Posso levar flores?

Pensei.

— Flores normais.

— O que são flores normais?

— Flores que não custem o equivalente a uma parcela de apartamento.

Ele soltou uma risada baixa.

— Está ficando complicado.

— Então desiste.

— De jeito nenhum.

Saí da sala sorrindo.

Nos quatro dias seguintes, Rafael cumpriu exatamente o que eu havia pedido.

Não apareceu no meu setor sem motivo.

Não mandou mensagens desnecessárias.

Não tentou usar o cargo para mudar meu horário.

Na sexta-feira, às sete da noite, ele estava esperando na recepção do prédio com um pequeno buquê de margaridas.

Olhei para as flores.

Depois para ele.

— Quanto custou?

— Camila.

— Preciso verificar.

— Trinta e cinco reais.

— Tem comprovante?

Ele me encarou, ofendido.

— Você está duvidando da minha palavra?

— Estou verificando seu histórico.

Rafael tirou o celular do bolso e mostrou o comprovante.

Comecei a rir.

— Você realmente guardou.

— Sabia que perguntaria.

O jantar foi estranho nos primeiros dez minutos.

Não porque faltasse assunto.

Pelo contrário.

Depois de três anos trabalhando juntos, conhecíamos detalhes absurdos um do outro. Eu sabia como Rafael gostava do café, quais reuniões o deixavam impaciente e qual gravata ele usava quando precisava parecer menos intimidador.

Ele sabia que eu odiava coentro, que sempre tirava os sapatos quando trabalhava até tarde e que ligava para minha mãe todas as quartas-feiras.

O estranho era conversar sem agenda, relatórios ou candidatos ao casamento entre nós.

Em algum momento, perguntei:

— Por que você dava presentes tão caros?

Rafael deixou os talheres no prato.

— Porque não sabia dar os simples.

— Isso é a coisa mais absurda que você disse hoje.

— Ainda temos sobremesa.

Revirei os olhos.

Ele sorriu.

Depois ficou sério.

— Meu pai demonstrava afeto resolvendo problemas com dinheiro. Cresci vendo isso. Quando você começou a lidar com os encontros, eu sabia que estava criando situações desconfortáveis para você. Dar alguma coisa parecia uma forma fácil de compensar.

— E depois?

— Depois percebi que ficava esperando sua reação.

Meu peito apertou.

— Você escolhia pessoalmente?

— Quase todos.

— Até os produtos de beleza?

— Pedi ajuda.

— De quem?

— Não vou contar.

— Foi sua mãe?

Rafael desviou o olhar.

Eu ri.

— Meu Deus. Foi Dona Helena.

— Não posso confirmar nem negar.

A resposta já era confirmação suficiente.

Minha expressão mudou quando me lembrei das mulheres dos encontros.

— Você realmente se arrepende da forma como tratou algumas delas?

Rafael assentiu.

— Sim.

— Vai fazer alguma coisa?

— Já fiz.

Fiquei surpresa.

— O quê?

— Pedi desculpas.

Quase deixei cair o copo.

— Para todas?

— Para as que consegui contatar.

— Rafael pediu desculpas?

— Não precisa parecer um acontecimento histórico.

— É quase isso.

Ele respirou fundo.

— Algumas não responderam. Duas disseram coisas que provavelmente mereci ouvir. Uma aceitou o pedido de desculpas e disse que espera nunca mais me encontrar.

Tentei não rir.

— Acho razoável.

— Eu também.

A mudança não apagava o que ele havia feito.

Mas importava que não estivesse tentando fingir que nada acontecera.

Depois daquele jantar, não começamos imediatamente um namoro.

Foi uma decisão dos dois.

Saímos mais vezes.

Conversamos.

Discutimos algumas vezes também.

Houve momentos em que Rafael voltava ao hábito de querer resolver tudo rapidamente. Quando isso acontecia, eu dizia:

— Você está negociando comigo de novo.

E ele parava.

Da minha parte, precisei admitir algo ainda mais desconfortável.

Eu havia usado os fracassos dele como diversão.

Nunca tinha sabotado um encontro, mas torcia por cada desastre porque gostava dos benefícios.

Quando contei isso, Rafael me perguntou:

— Você teria realmente atrapalhado se Beatriz tivesse gostado de mim?

Demorei para responder.

— Antes daquele jantar, talvez eu inventasse alguma desculpa para não facilitar.

— Isso é quase sabotagem.

— Eu sei.

— E agora?

— Agora eu teria vergonha.

Ele assentiu.

— Ótimo.

— Não vai me julgar?

— Camila, eu comparei o nariz de uma mulher a um gráfico de investimento.

— É verdade.

— Nenhum de nós tem muita vantagem moral nesta conversa.

Rimos.

Dois meses depois, Dona Helena descobriu que estávamos saindo.

Na verdade, “descobriu” era uma palavra generosa.

Ela nos encontrou numa cafeteria perto da Avenida Paulista.

Eu estava sentada diante de Rafael quando ouvi:

— Finalmente.

Quase derrubei minha xícara.

Dona Helena apareceu ao lado da mesa com uma expressão de satisfação.

— Dona Helena…

Ela nem me deixou terminar.

— Eu sabia.

Rafael fechou os olhos.

— Mãe.

— Não faça essa cara. Quantos encontros eu precisei marcar para você perceber o óbvio?

Olhei imediatamente para ela.

— A senhora sabia?

— Que meu filho gostava de você? Claro.

Rafael ficou tenso.

— Desde quando?

— Desde antes do primeiro encontro.

— E por que continuou marcando?

Dona Helena deu de ombros.

— Porque toda vez que eu mencionava casamento você mudava de assunto. E toda vez que eu falava o nome da Camila você prestava atenção.

— Isso não justifica colocar sete mulheres no meio disso — falei.

O sorriso dela desapareceu um pouco.

— Você tem razão.

A resposta franca me surpreendeu.

— Eu realmente achei que ele pudesse conhecer alguém e seguir em frente se não tivesse coragem de admitir o que sentia. Não pensei no desconforto que isso criaria.

Rafael apoiou os braços na mesa.

— Então acabou.

— O quê?

— Os encontros organizados, as interferências e as tentativas de controlar minha vida amorosa.

Dona Helena franziu a testa.

— Rafael…

— Eu gosto da Camila. Se isso der certo, ótimo. Se não der, será decisão nossa. Não vou mais colocar outras pessoas nessa situação para evitar uma conversa difícil.

Olhei para ele.

Era exatamente a conversa que precisava acontecer.

Dona Helena respirou fundo.

Depois assentiu.

— Está bem.

Ela olhou para mim.

— E você, Camila?

— Eu gosto dele também. Mas ainda estamos construindo isso.

— Certíssima.

Rafael arqueou uma sobrancelha.

— Ela está certa e eu não?

— Você demorou três anos.

Eu ri.

Rafael não.

Quando Dona Helena saiu, ele ficou olhando para mim.

— Você achou graça?

— Muita.

— Minha própria mãe está contra mim.

— Não está.

— Parece.

— Ela só conhece você.

O tempo continuou fazendo o que grandes declarações não conseguem fazer: mostrar se uma mudança é verdadeira.

Rafael permaneceu impulsivo e direto, mas começou a escolher melhor as palavras.

Eu parei de interpretar dinheiro como demonstração suficiente de cuidado.

Aprendemos que carinho podia ser um café deixado sobre a mesa, uma mensagem perguntando se eu tinha chegado bem, um jantar comum ou simplesmente respeitar quando o outro precisava de espaço.

Seis meses depois da minha transferência, fui promovida oficialmente a coordenadora de planejamento.

Naquela noite, Rafael apareceu no meu apartamento.

Sem bolsa.

Sem joia.

Sem chave de carro.

Trazia uma caixa pequena.

Olhei desconfiada.

— Combinamos sem presentes caros.

— Abre.

Dentro havia uma caneta simples, com meu nome gravado.

Olhei para ele.

— Quanto custou?

— Menos do que suas margaridas permitiriam.

Ri.

No cartão havia uma frase:

“Para assinar suas próprias decisões.”

Passei o dedo sobre meu nome.

Nenhum diamante tinha me emocionado daquele jeito.

— Gostou? — perguntou.

— Muito.

— Então acertei?

— Uma vez na vida.

Ele sorriu.

— Posso ganhar alguma recompensa?

— Talvez.

— Um beijo?

— Você continua negociando.

— Só estou perguntando.

Puxei-o pela gravata e o beijei antes que terminasse.

Quando nos afastamos, Rafael estava sorrindo.

— Isso significa que você é oficialmente minha namorada?

— Significa que acabou seu período de experiência.

— E fui aprovado?

— Com ressalvas.

— Quais?

— Muitas.

— Podemos discutir?

— Amanhã.

Ele riu.

Algum tempo depois, encontrei a velha pulseira de diamantes guardada entre minhas coisas. Eu ainda não a tinha vendido, devolvido ou usado.

Levei até Rafael.

Coloquei a caixa diante dele.

— Lembra disso?

— Lembro.

— Você disse que era uma lembrança de quando tentou demonstrar alguma coisa fazendo tudo errado.

— Sim.

Abri a caixa.

— Então acho que podemos encerrar essa fase.

Ele franziu a testa.

— Quer devolver?

— Não.

Coloquei a pulseira no pulso.

— Agora posso usar.

— O que mudou?

Olhei para ele.

— Agora sei exatamente quem você é na minha vida. E também sei que posso ir embora se algum dia você deixar de me respeitar.

Rafael segurou minha mão.

— Justo.

Sorri.

No fim, o homem que eu torcia para continuar solteiro realmente deixou de ser solteiro.

E eu, que achava estar ficando rica graças aos encontros fracassados dele, descobri que o melhor presente não estava dentro de nenhuma caixa.

Foi perceber que eu não precisava ser comprada, protegida em silêncio nem adivinhar sentimentos.

Eu podia escolher.

E, dessa vez, escolhi ficar — não como a assistente que recolhia presentes depois dos desastres dele, mas como uma mulher que sabia o próprio valor e começava ao lado dele uma história muito melhor.

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Written By

admini

Interior design enthusiast and architectural content curator at Viet Thanh Interior.

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