Ouvi Gustavo dizer que ia se casar com outra enquanto eu comprava preservativos para nós dois

admini Th8 20, 2026
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Parte 3

Desci pelo elevador abraçada à caixa como se aquele monte de objetos pudesse me proteger de alguma coisa.

Quando as portas se fecharam, minhas pernas começaram a tremer.

Eu tinha imaginado muitas vezes como seria meu último encontro com Gustavo. Em algumas versões, eu conseguiria sair em silêncio e preservar pelo menos a lembrança do menino que um dia segurou um guarda-chuva sobre minha cabeça.

Não aconteceu.

Na portaria, coloquei a caixa no chão por alguns segundos e respirei fundo. Meu celular começou a vibrar.

Gustavo.

Recusei.

Ele ligou novamente.

Recusei outra vez.

Na terceira tentativa, desliguei o aparelho.

Não queria ouvir que eu tinha destruído o namoro dele. Não queria ouvir que eu era ingrata, ciumenta ou dramática. Durante anos, Gustavo sempre encontrava uma maneira de me fazer duvidar do que eu sentia.

Dessa vez, eu não queria mais ajudá-lo a fazer isso.

Quando cheguei em casa, coloquei a caixa no meio da sala e comecei a tirar as coisas de dentro.

Um moletom antigo. Dois livros. Um carregador. Uma necessaire. Uma caneca.

Objetos comuns.

Mesmo assim, cada um carregava alguma lembrança.

Eu me peguei segurando o moletom por tempo demais. Gustavo tinha colocado aquela peça sobre meus ombros numa madrugada fria, anos antes, quando ficamos conversando até amanhecer.

Naquela época, eu teria jurado que aquele gesto significava alguma coisa.

Dobrei o moletom e coloquei numa sacola para doação.

Fiz o mesmo com quase tudo.

Não porque os objetos fossem culpados, mas porque eu precisava deixar de transformar pequenos gestos em provas de um amor que nunca tinha sido prometido.

Quando liguei o celular novamente, havia onze chamadas perdidas.

Também havia mensagens.

“Você precisava falar aquilo?”

“Isabela foi embora.”

“Está satisfeita agora?”

A última dizia:

“Depois de tudo que eu fiz por você, era isso que eu merecia?”

Fiquei olhando para aquelas palavras durante muito tempo.

Depois de tudo que eu fiz por você.

Ali estava a frase que eu sempre tivera medo de ouvir.

Gustavo havia me ajudado quando eu não tinha ninguém. Isso era verdade.

Durante anos, eu fui profundamente grata.

Só que, sem perceber, transformei gratidão em dívida.

Aceitei migalhas porque me lembrava do guarda-chuva.

Aceitei silêncio porque me lembrava da casa.

Aceitei uma relação sem nome porque me lembrava de quantas vezes ele tinha me salvado quando éramos mais jovens.

Meu celular tocou novamente.

Atendi.

— O que você quer?

— O que eu quero?

A voz de Gustavo estava carregada de raiva.

— A Isabela pegou as coisas dela e foi para um hotel. Ela não quer nem falar comigo.

Fechei os olhos.

— E o que você espera que eu faça?

— Você podia ter ficado quieta.

— Ela me perguntou.

— E desde quando você precisa responder tudo que perguntam?

Aquilo quase me fez rir.

Não porque fosse engraçado.

Porque era absurdo.

— Desde quando a verdade virou responsabilidade minha, Gustavo?

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Você sabia que eu gostava dela.

— Descobri ouvindo você dizer que queria casar com ela.

— Exatamente. Então por que fez isso?

Sentei na ponta do sofá.

— Escuta o que você está dizendo. Você me procurava enquanto namorava com ela e agora quer me culpar porque ela descobriu.

— Entre você e eu sempre foi diferente.

— Diferente para quem?

Ele respirou fundo.

— Mariana, não distorce as coisas. Você nunca me pediu namoro. Eu nunca prometi casamento. Nós dois sabíamos o que estávamos fazendo.

Aquilo doeu porque havia uma parte verdadeira.

Eu aceitei aquela relação.

Aceitei porque esperava mais, mas nunca tive coragem de exigir mais.

— Você tem razão em uma coisa — falei. — Você nunca prometeu compromisso comigo.

Gustavo ficou calado.

Continuei:

— Mas também nunca me disse que estava comprometido com outra pessoa. Isso muda tudo.

— Eu ia contar.

— Quando?

Nenhuma resposta.

— Depois de casar?

— Fala sério.

— Estou falando muito sério.

Passei a mão pelo rosto e olhei para as malas perto da parede.

Minha viagem seria na manhã seguinte.

— Gustavo, eu estou indo embora de São Paulo.

— Como assim?

A raiva na voz dele desapareceu por alguns segundos.

— Pedi demissão. Meu voo é amanhã.

— Você ficou maluca?

— Não.

Pela primeira vez, a palavra saiu sem hesitação.

— Acho que finalmente estou ficando lúcida.

Ele soltou uma risada nervosa.

— Você vai jogar sua carreira fora por causa disso?

— Minha carreira não é você.

— Eu coloquei você naquela empresa.

— E eu trabalhei todos esses anos. Você fez uma indicação, Gustavo. Não trabalhou no meu lugar.

Ele ficou em silêncio novamente.

Essa era outra dívida que eu tinha carregado sem perceber.

Gustavo abriu uma porta profissional para mim, e eu havia passado anos tratando aquilo como se tudo que eu conquistara depois ainda pertencesse a ele.

— Você está fazendo isso para me punir — disse.

— Não. Estou fazendo porque percebi que construí minha vida inteira ao seu redor.

— E qual é o problema nisso?

A pergunta veio tão naturalmente que senti um arrepio.

— O problema é que você construiu a sua sem pensar em mim.

Desliguei.

Ele ligou novamente.

Bloqueei o número.

Naquela noite quase não dormi.

Em certos momentos, lembrava do Gustavo adulto, fumando diante de mim e dizendo que éramos apenas amigos que se ajudavam.

Em outros, lembrava do menino correndo debaixo da chuva para me encontrar.

Meu coração tentava juntar as duas pessoas.

Minha razão finalmente começava a aceitar que ambas existiam.

Gustavo tinha sido bom comigo.

Também tinha me machucado.

Uma coisa não anulava a outra.

E eu não precisava transformar o passado em permissão para aceitar qualquer coisa no presente.

Pouco depois da meia-noite, recebi uma mensagem de um número que eu não conhecia.

Era Isabela.

“Desculpa incomodar. Consegui seu número porque estava salvo na agenda do apartamento. Só queria saber uma coisa. Quando você descobriu sobre mim, ele terminou alguma coisa com você?”

Fiquei parada olhando para a tela.

Depois respondi:

“Não. Naquela noite, quando perguntei por que ele continuava me procurando, ele disse que nós dois apenas nos divertíamos e que eu não deveria fazer perguntas.”

A resposta demorou alguns minutos.

“Obrigada por responder.”

Nada mais.

Não tentei saber o que ela faria.

Aquilo pertencia a ela.

Na manhã seguinte, acordei cedo, tomei banho e fechei as malas.

Quando estava terminando de conferir os documentos, o interfone tocou.

— Dona Mariana, tem um senhor aqui querendo subir.

Não precisei perguntar quem era.

— Quem?

— Gustavo.

Meu primeiro impulso foi dizer que não queria vê-lo.

Então olhei para a chave do apartamento dele em cima da mesa.

Eu ainda precisava devolvê-la.

— Pode mandar subir.

Quando Gustavo apareceu, parecia ter passado a noite acordado.

Os olhos estavam vermelhos. O cabelo, desarrumado. Não havia nada daquele homem seguro e indiferente que tinha fumado diante de mim alguns dias antes.

Segurei a porta sem convidá-lo a entrar.

— Sua chave.

Estendi a mão.

Ele não pegou.

— Isabela terminou comigo.

— Sinto muito.

— Não parece.

— O que você quer que eu faça? Chore por você?

Ele me encarou.

— Quero entender por que você está agindo assim.

— Assim como?

— Como se eu fosse um monstro.

Balancei a cabeça.

— Eu nunca disse isso.

— Então por que está indo embora?

— Porque finalmente entendi que não posso continuar vivendo dessa maneira.

Ele tentou passar por mim.

Bloqueei a entrada.

Gustavo olhou para o meu braço diante da porta, incrédulo.

Talvez nunca tivesse me visto impor um limite tão simples.

— Você nem vai me deixar entrar?

— Não.

— Mariana, eu conheço você há quase vinte anos.

— Exatamente.

— Eu cuidei de você quando ninguém mais cuidou.

Meu peito apertou.

Ali estava.

A dívida.

A frase que sustentava tudo.

— Eu sei.

— Então como consegue fazer isso comigo agora?

A voz dele falhou pela primeira vez.

— Você sabe o que aconteceu comigo. Sabe tudo que eu passei. Você era a única pessoa que nunca ia embora.

Durante anos, aquelas palavras teriam sido suficientes.

Eu teria largado a mala.

Teria pedido desculpas.

Teria aberto a porta.

Em vez disso, apertei a chave na palma da mão.

— E talvez esse tenha sido o nosso maior problema, Gustavo.

Ele franziu a testa.

— Que problema?

— Você começou a acreditar que eu nunca iria embora, não importa o que fizesse.

O rosto dele ficou imóvel.

Coloquei a chave na mão dele.

— Você me salvou numa época em que eu precisava. Eu também fiquei ao seu lado quando você precisou. Nenhum de nós deve a própria vida ao outro.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso que você quis dizer.

Ele fechou os dedos sobre a chave.

— Então acabou?

Olhei para ele.

Pela primeira vez, não procurei o garoto de dezesseis anos escondido atrás do homem à minha frente.

Vi apenas Gustavo.

Com tudo que havia de bom.

E tudo que havia de cruel.

— Acabou.

Ele respirou fundo, mas não saiu.

— E você simplesmente vai para Curitiba?

— Vou.

— Sozinha?

— Sim.

— Você nem conhece ninguém lá.

— Talvez seja exatamente do que eu preciso.

Gustavo soltou uma risada amarga.

— Depois você vai perceber que está cometendo um erro.

— Talvez.

Peguei a alça da mala.

— Mas vai ser o meu erro.

Ele olhou para minha bagagem e depois para mim.

— Eu não acredito que você está jogando tudo fora.

Dessa vez, eu consegui responder sem que minha voz tremesse.

— Eu não estou jogando tudo fora. Estou parando de jogar a mim mesma fora.

O rosto dele perdeu a cor.

E naquele momento entendi que a casa que Gustavo um dia tinha me oferecido havia virado uma dívida que ele acreditava poder cobrar sempre que quisesse me manter presa.

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admini

Interior design enthusiast and architectural content curator at Viet Thanh Interior.

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