Parte 3
Eu não peguei a pasta imediatamente.
Fiquei olhando para Marcelo sob a luz fria da portaria, tentando separar duas coisas que ele insistia em misturar desde que tudo desmoronara: o problema da empresa e o problema do nosso casamento.
— O que tiver relação com a garantia, você envia para o Renato — falei. — O que tiver relação com a Patrícia, vocês investigam dentro da empresa.
Marcelo abaixou a pasta.
— Você não quer ver?
— Quero. Mas não quero que você pense que, se descobrirmos quem fez isso, nós dois voltamos a ser o que éramos.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Tem certeza?
— Não. Mas estou começando a entender.
Foi a primeira resposta sincera que ouvi dele desde aquela noite.
No dia seguinte, Renato me chamou para uma reunião por vídeo. Com a retirada da garantia, nossa equipe precisava revisar as operações ainda abertas, os valores já desembolsados e os documentos enviados pela Azevedo durante os últimos meses.
Não era uma investigação feita para salvar Marcelo.
Era obrigação nossa proteger o fundo.
E foi exatamente por isso que as primeiras inconsistências apareceram.
Patrícia tinha solicitado sucessivos adiamentos na entrega de demonstrativos detalhados de alguns fornecedores. Em dois casos, relatórios enviados ao banco apresentavam classificações diferentes das planilhas entregues ao fundo. Não eram provas definitivas de desvio, mas eram suficientes para exigir conferência.
— Não quero conclusão precipitada — avisei a Renato. — Só quero os fatos.
— É o que estamos fazendo.
Ao mesmo tempo, Marcelo iniciou uma revisão interna.
Dois dias depois, pediu formalmente o afastamento temporário de Patrícia das funções financeiras até que todos os acessos fossem conferidos.
Ela reagiu imediatamente.
Primeiro disse que estava sendo perseguida.
Depois alegou que Marcelo estava tentando encontrar um culpado para a crise causada pela retirada da garantia.
Por fim, procurou minha sogra.
Eu soube disso porque minha sogra apareceu no meu prédio naquela tarde.
Desta vez, não consegui ignorá-la.
Ela ficou esperando na recepção quase quarenta minutos e disse ao porteiro que só iria embora depois de falar comigo.
Desci.
Ela parecia dez anos mais velha do que no jantar.
— Juliana, por favor.
— Davi não vai descer.
O rosto dela se contraiu.
— Eu só queria pedir desculpas para ele.
— Ele tem sete anos. Ainda acha que fez alguma coisa para o pai e a avó deixarem de amá-lo.
Ela começou a chorar.
Não senti satisfação.
Também não senti vontade de consolá-la.
— Eu errei.
— A senhora não errou apenas quando acreditou num papel falso. A senhora pegou cabelo do meu filho escondido, me acusou diante de vinte pessoas e mandou uma criança sair de casa no meio da chuva.
— Eu achei que estava protegendo o Marcelo.
— E quem protegeu o Davi da senhora?
Ela não respondeu.
Depois de alguns segundos, contou que Patrícia a procurara novamente. Dissera que eu estava usando a situação para tomar a empresa, que a retirada da garantia tinha sido planejada e que Marcelo precisava se afastar de mim de uma vez.
Eu quase ri.
— E a senhora acreditou?
Minha sogra balançou a cabeça.
— Desta vez, não.
— Por quê?
Ela engoliu em seco.
— Porque perguntei onde ela conseguiu aquele exame.
Meu corpo ficou tenso.
Segundo minha sogra, na primeira vez Patrícia havia dito que usara um conhecido de uma clínica. Agora, pressionada, mudara a versão. Afirmou que o documento tinha vindo de um laboratório terceirizado.
— Eu pedi o nome do laboratório — minha sogra continuou. — Ela não quis dizer.
Aquilo não era uma prova nova surgida do nada.
Era apenas a mentira começando a se enrolar nela mesma.
— A senhora ainda tem as mensagens que trocou com ela?
— Tenho.
— Não apague nada.
Minha sogra assentiu rapidamente.
— Você acha que devo mandar para o Marcelo?
— Deve mandar para quem estiver fazendo a apuração da empresa e, sobre o documento falso, para o advogado que vocês escolherem. Eu não vou administrar as consequências da decisão que a senhora tomou.
Ela abaixou o olhar.
Antes de ir embora, perguntou:
— Você nunca vai me perdoar?
— Hoje eu não estou preocupada em perdoar a senhora. Estou preocupada em fazer meu filho voltar a dormir sem medo.
Subi.
Naquela noite, sentei ao lado de Davi enquanto ele montava um quebra-cabeça na sala.
Ele estava mais quieto desde a expulsão.
De repente, perguntou:
— O exame novo falou que o papai é meu pai?
Eu parei.
Já tinha decidido que não mentiria para ele.
— Falou.
Os olhos dele se iluminaram por um segundo.
— Então ele vai voltar para casa?
Meu coração apertou.
— Ser pai e ser marido são coisas diferentes.
— Você está brava com ele?
— Estou machucada.
Davi encaixou uma peça devagar.
— Ele está bravo comigo?
Ajoelhei na frente dele.
— Não. Nunca foi culpa sua. Nada disso aconteceu por sua causa.
Foi então que percebi que minha decisão mais importante não seria sobre a empresa, nem sobre dinheiro.
Seria sobre os limites que eu colocaria ao redor do meu filho.
No dia seguinte, mandei uma mensagem para Marcelo.
Disse que ele poderia encontrar Davi num café perto do prédio, comigo presente.
Ele chegou vinte minutos antes.
Quando Davi o viu, ficou parado.
Marcelo se abaixou.
— Filho…
Davi não correu para ele.
Aquilo atingiu Marcelo de um jeito que nenhum telefonema do banco tinha conseguido.
— Você acha que eu sou seu filho agora? — Davi perguntou.
Marcelo perdeu a voz.
Eu precisei olhar para o lado.
Ele então respirou fundo.
— Eu sempre fui seu pai. Eu é que fui burro o bastante para esquecer como um pai deveria agir.
— Você expulsou a gente.
— Eu expulsei.
Marcelo não tentou inventar desculpas.
— E eu sinto muito.
Davi permaneceu alguns segundos sem se mover.
Depois sentou à mesa, mas não pediu abraço.
Eu respeitei.
Marcelo também.
Era pouco.
Mas, pela primeira vez, ele parecia compreender que arrependimento não dava direito automático ao perdão.
Na empresa, a situação continuava piorando.
A revisão interna identificou pagamentos antecipados a prestadores que não seguiam o padrão habitual da Azevedo. Alguns haviam sido aprovados diretamente no setor controlado por Patrícia.
Ainda era cedo para dizer quanto havia sido perdido.
Mas já existia motivo suficiente para bloquear os acessos dela.
Quando soube do bloqueio, Patrícia apareceu na empresa.
Entrou na sala de Marcelo furiosa.
Eu não estava presente, mas ele me telefonou depois e contou o que aconteceu.
— Ela disse que tudo isso começou porque você decidiu se vingar.
— E o que você respondeu?
Marcelo demorou alguns segundos.
— Que a empresa estava em risco porque eu passei anos sem entender de onde vinha parte da nossa proteção financeira.
Aquilo me surpreendeu.
Ele continuou:
— E que eu não ia colocar a culpa em você por ter retirado uma garantia que nunca teve obrigação de dar.
Fiquei em silêncio.
— Ela ficou desesperada quando eu mencionei os relatórios — ele acrescentou.
— Desesperada como?
— Quis saber exatamente quais períodos estávamos revisando.
Era a reação de alguém preocupado não apenas com a crise, mas com o que a crise poderia revelar.
Dois dias depois, Renato recebeu a última parte dos arquivos pendentes.
Ele me ligou no fim da tarde.
— Juliana, encontramos a razão de Patrícia estar tentando atrasar a revisão.
Sentei diante da janela.
— Fala.
— Existem pagamentos repetidos e reclassificados. Alguns valores foram lançados como antecipação de fornecimento e depois compensados em contas diferentes. Precisamos de auditoria para fechar o número, mas não parece erro operacional.
— Marcelo já sabe?
— A equipe dele encontrou parte da mesma coisa.
Fechei os olhos.
A falsificação do exame agora fazia ainda mais sentido.
Patrícia sabia que a renovação da garantia traria uma análise mais profunda.
Sabia que eu estava ligada ao fundo.
E sabia que, se conseguisse me transformar em inimiga da família Azevedo antes daquela revisão, talvez qualquer alerta vindo de mim fosse interpretado como vingança de uma esposa rejeitada.
Ela quase conseguiu.
Minha sogra havia sido a ferramenta perfeita.
Marcelo, o homem que deveria ter me conhecido melhor, completou o serviço.
Naquela noite, ele me ligou outra vez.
— A gente precisa conversar pessoalmente.
— Sobre o quê?
— Sobre a Patrícia.
— Você pode falar pelo telefone.
— Ela pediu uma reunião amanhã. Disse que vai explicar tudo se você estiver presente.
Eu quase recusei.
Depois pensei no laudo falso, no rosto de Davi naquela noite e em todas as vezes em que aquela mulher havia usado meu casamento como escudo para esconder o que acontecia dentro da empresa.
— Eu vou.
— Juliana…
— Não confunda isso com uma chance para nós dois.
— Não vou.
Antes de desligar, ele acrescentou:
— Minha mãe também quer ir.
— Ela deve ir.
No dia seguinte, entrei novamente na sede da Azevedo Industrial pela primeira vez desde que havia retirado a garantia.
Patrícia já estava na sala de reuniões.
Minha sogra estava sentada num canto.
Marcelo mantinha uma pasta fechada diante dele.
Assim que me viu, Patrícia se levantou.
— Finalmente.
Sentei sem responder.
Ela tentou sorrir.
— Juliana, tudo isso saiu do controle. Mas você precisa entender que eu nunca quis machucar o Davi.
Olhei diretamente para ela.
— Então comece explicando por que uma gerente financeira precisou falsificar a paternidade de uma criança para resolver um problema dentro de uma empresa.
O sorriso desapareceu.
E, pela primeira vez, Patrícia percebeu que ninguém naquela sala estava mais disposto a acreditar na versão que ela havia preparado.
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