Parte 3
Gabriel ficou parado na calçada, segurando meu exame numa mão e me olhando como se eu tivesse dito algo absurdo.
— Como assim eu nunca perguntei?
— Exatamente assim.
Apontei para o papel em sua mão.
— Em sete anos, quantas vezes você realmente conversou comigo sobre o que aconteceu? Não estou falando de me lançar olhares atravessados no hotel ou me chamar de manipuladora quando estava bêbado. Estou falando de perguntar.
Ele abriu a boca.
Nenhuma resposta saiu.
Eu continuei:
— Você decidiu que eu tinha escrito aquelas cartas fingindo ser o Rafael. Depois decidiu que eu tinha feito isso para entregar a Camila para ele. E desde então me tratou como se eu tivesse arquitetado tudo.
— Mas ela disse…
— Camila disse o que ela acreditava.
Gabriel apertou a mandíbula.
— E por que ela acreditava que as cartas eram do Rafael?
Essa era a pergunta que ele deveria ter feito sete anos antes.
Suspirei.
— Porque você nunca assinava.
Ele franziu a testa.
— Eu mandava você entregar.
— Mandava entregar escondido. Você dizia: “Não fala que fui eu”. Lembra?
Gabriel desviou os olhos.
Lembrava.
Na escola, ele era orgulhoso demais para admitir que gostava de alguém e inseguro demais para correr o risco de ouvir um não. As cartas eram sua forma de falar sem se expor.
— No começo, Camila só recebia e guardava — expliquei. — Depois começou a achar que Rafael era o autor porque ele também gostava dela. Ela interpretava qualquer coincidência como confirmação.
— E você deixou.
A acusação voltou à voz dele.
— Eu tinha dezessete anos, Gabriel. Você era meu colega de carteira, não meu filho. Eu não tinha obrigação de administrar sua vida amorosa.
Ele passou a língua pelos lábios, impaciente.
— Mas você sabia.
— Descobri tarde.
Contei o que nunca tinha tido oportunidade de explicar.
Um dia, Camila me perguntou discretamente se Rafael tinha vergonha de falar pessoalmente as mesmas coisas que colocava nas cartas. Eu percebi naquele momento que ela estava confundindo tudo.
Naquela tarde, procurei Gabriel.
Mas ele havia faltado à aula.
No dia seguinte, antes que eu conseguisse conversar com ele, Camila apareceu dizendo que Rafael tinha finalmente admitido que gostava dela.
Quando Gabriel voltou à escola, estava preparando sua própria declaração.
Eu pensei em explicar.
Só que ele saiu antes de mim e encontrou os dois se beijando.
— Depois daquele dia você mal falava comigo — terminei. — Quando tentei chegar perto, você mandou eu cuidar da minha vida.
Gabriel ficou em silêncio.
A cidade seguia funcionando ao nosso redor. Carros passavam, o porteiro do condomínio conversava com um entregador e alguém passeava com um cachorro do outro lado da rua.
Mas entre nós, sete anos de ressentimento haviam ficado suspensos no ar.
— Você podia ter insistido — ele disse.
Soltei uma risada sem humor.
— Claro. A culpa ainda precisa ser minha.
Ele percebeu o que tinha acabado de fazer.
Passou a mão no rosto.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi isso que você disse.
Peguei minha bolsa.
— E é exatamente esse o problema entre nós, Gabriel. Você sempre teve facilidade para decidir o que eu sou antes de ouvir o que tenho a dizer.
Dessa vez ele não tentou me impedir quando fui embora.
Dois dias depois, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
“Sou eu. Gabriel.”
A segunda veio logo em seguida.
“Me passa o horário da próxima consulta.”
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
Respondi apenas com o endereço da clínica e o horário.
Na terça-feira seguinte, ele apareceu quinze minutos antes.
Não trouxe flores. Não trouxe presentes. Não tentou fazer uma cena.
Apenas sentou na sala de espera ao meu lado.
Quando a médica chamou meu nome, Gabriel se levantou comigo.
Durante o ultrassom, o bebê se mexeu bastante.
A médica apontou algumas imagens na tela, explicou as medidas, falou sobre os batimentos e disse que, apesar da descoberta tardia, tudo parecia evoluir bem.
Gabriel não falou quase nada.
Mas quando ouviu o coração do bebê, segurou o braço da cadeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
No estacionamento, ele demorou a entrar no carro.
— É estranho — murmurou.
— O quê?
— Eu passei dois dias pensando que talvez você estivesse mentindo.
Não me surpreendi.
— E agora?
— Agora eu percebi que queria que fosse mentira porque era mais fácil.
Aquilo, pelo menos, era sincero.
— Fácil para você — respondi.
Ele assentiu.
— É.
Foi a primeira vez que Gabriel reconheceu alguma coisa sem tentar se defender.
Nas semanas seguintes, ele apareceu em todas as consultas.
Não éramos um casal.
Eu também havia retirado a proposta de casamento.
Na segunda consulta, disse isso diretamente.
— Eu não quero mais me casar com você.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Foi você quem apareceu propondo.
— Eu estava em choque. Achei que casamento era a maneira mais simples de garantir que você assumisse responsabilidade. Pensei melhor.
— E qual é a maneira agora?
— Você reconhecer seu filho, participar de verdade e cumprir suas obrigações. Casamento não conserta falta de confiança.
Ele ficou quieto.
Depois respondeu:
— Justo.
Ainda assim, nossos problemas estavam longe de acabar.
No hotel, a situação ficou complicada quando começaram os comentários.
Funcionários haviam visto Gabriel me esperando depois do expediente. Outros sabiam que ele tinha ido comigo a consultas.
Eu odiava os cochichos.
O pior aconteceu quando um diretor, acreditando estar me fazendo um favor, comentou que minha promoção recente talvez tivesse finalmente encontrado “uma explicação”.
Eu o encarei.
— Minha promoção aconteceu oito meses atrás. Muito antes de qualquer um saber dessa gravidez.
O homem tentou rir.
— Foi só brincadeira.
— Para você.
Naquela tarde, procurei Gabriel.
Entrei em sua sala sem marcar horário.
— Precisamos conversar.
Ele desligou o computador.
— Aconteceu alguma coisa com o bebê?
— Aconteceu alguma coisa comigo.
Contei sobre os comentários.
O rosto dele endureceu.
— Quem falou?
— Não importa.
— Importa para mim.
— Não, Gabriel. Você ainda não entendeu.
Coloquei as mãos sobre a mesa.
— Eu não quero que você saia demitindo pessoas para me proteger. Isso só vai reforçar a ideia de que minha carreira depende de você.
Ele recostou na cadeira.
— Então o que você quer?
— Quero que minha posição profissional não dependa do pai do meu filho.
A frase o atingiu.
— Estou pensando em pedir transferência para outra unidade depois da licença.
Gabriel levou alguns segundos para responder.
— Você gosta daqui.
— Gosto do meu trabalho. Não gosto de ter cada conquista questionada porque dormi uma noite com o filho do dono.
Ele abaixou os olhos.
— Aquela noite começou comigo bêbado, agressivo e te tratando de uma forma que eu não deveria ter tratado ninguém.
Eu não esperava ouvir aquilo.
— Eu lembro de partes — continuou. — E quanto mais lembro, menos orgulho tenho.
Cruzei os braços.
— Ótimo. Porque eu também não romantizo o que aconteceu.
Gabriel concordou.
Naquela mesma semana, ele tomou uma decisão que eu não pedi.
Solicitou formalmente que qualquer avaliação, promoção ou definição salarial relacionada a mim fosse conduzida por outro diretor, sem participação dele.
Depois me enviou uma cópia do documento.
Não escreveu “viu como sou bom?”.
Não pediu agradecimento.
Apenas escreveu:
“Isso deveria ter sido feito desde que soubemos da gravidez.”
Aquilo não apagou sete anos.
Mas era uma atitude concreta.
Camila apareceu novamente na história algumas semanas depois, quando veio ao hotel entregar pessoalmente um convite atualizado do casamento.
Ela me encontrou perto da recepção.
— Mariana, posso falar com você?
Fomos até o café.
Camila parecia constrangida.
— O Gabriel me procurou.
Meu corpo ficou tenso.
— Para quê?
— Perguntar sobre as cartas.
Fiquei em silêncio.
— Eu contei tudo que lembrava — disse ela. — Inclusive que você nunca afirmou que eram do Rafael. Fui eu que presumi.
Ela mordeu o lábio.
— Eu até lembro de você dizer uma vez: “Tem certeza de que sabe quem está escrevendo?”. Eu achei que você estava brincando.
A lembrança existia.
Eu quase tinha esquecido.
— E o Rafael?
Camila sorriu.
— O Rafael gostava de mim de qualquer jeito. Quando começamos a namorar, foi por causa do que ele falou pessoalmente, não por causa das cartas.
Aquilo importava.
Não porque mudasse o passado.
Mas porque desmontava a fantasia de Gabriel de que alguém tinha “roubado” o destino dele.
Camila tocou minha mão.
— Sinto muito por ter criado aquela confusão na reunião.
— Você não tinha como saber.
— Mas agora sei.
Quando ela foi embora, encontrei Gabriel esperando perto da porta do café.
— Você ouviu?
— Um pouco.
— Então finalmente acredita em mim?
Ele olhou para o chão.
— Eu devia ter acreditado quando você falou.
Minha garganta apertou, mas mantive a voz firme.
— Sim. Devia.
Gabriel respirou fundo.
— Mariana, eu passei anos odiando você por uma história que eu mesmo montei.
— Eu sei.
— E naquela noite da reunião eu usei isso como desculpa para te tratar mal.
— Também sei.
Ele levantou os olhos.
— Não vou pedir que você esqueça.
Aquilo era diferente do Gabriel que eu conhecia.
— Só queria dizer que sinto muito.
Não respondi imediatamente.
Depois disse:
— Eu aceito o pedido de desculpas. Mas aceitar não significa que tudo está resolvido.
— Eu entendo.
— Espero que entenda mesmo.
Naquela noite, cheguei ao meu apartamento exausta.
Deitei e coloquei a mão na barriga.
O bebê se mexeu.
Sorri pela primeira vez sem medo.
Então meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Gabriel.
“Conversei com minha família. Amanhã eles querem te conhecer.”
Meu sorriso desapareceu.
Logo abaixo havia outra mensagem.
“Minha mãe acha que casamento é a única solução.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Então respondi:
“Ótimo. Amanhã ela vai descobrir que minha vida não é uma reunião do conselho da família de vocês.”
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