Parte 4
Rafael ficou olhando para Mariana como se ainda esperasse que ela mudasse de ideia.
— Você não precisa mentir — disse ele. — Só precisa dizer que estamos tentando resolver.
— Mas não estamos.
— Porque você nem me deu uma chance.
Mariana cruzou os braços.
— A chance existiu durante os três meses em que você poderia ter interrompido o que estava fazendo.
— Eu já disse que vou terminar com a Larissa.
— E continua achando que terminar com ela apaga o que você fez comigo.
Rafael andou pela sala, inquieto.
— Meu pai está usando meu casamento para julgar minha capacidade profissional.
— Não. Seu pai está julgando a maneira como você levou uma funcionária diretamente subordinada a você para um evento cheio de pessoas ligadas à empresa enquanto escondia sua esposa. Eu não preciso entender de governança corporativa para perceber a diferença.
Ele ficou calado.
Mariana pegou a bolsa novamente.
— Amanhã você resolve sua situação profissional. Hoje eu vou resolver a minha.
Na manhã seguinte, Rafael entrou na sede do Grupo Almeida acreditando que ainda conseguiria reverter parte do estrago.
Roberto já o esperava numa sala reservada.
A reunião não tratou de adultério como questão moral.
Tratou de conflito de interesse, exposição desnecessária da empresa e da relação entre um executivo e uma funcionária diretamente subordinada a ele.
Rafael tentou argumentar.
— Minha relação com Larissa nunca interferiu nas decisões profissionais.
Roberto respondeu:
— Então você não terá problema em passar por uma avaliação independente.
Rafael endureceu.
— Você está me afastando?
— Da supervisão direta dela, sim. E sua possível indicação à presidência ficará suspensa enquanto a governança avalia a situação.
— Isso é humilhante.
Roberto inclinou-se sobre a mesa.
— Humilhante foi o que você fez com sua esposa ontem.
Rafael fechou os olhos.
— Pai, não misture as coisas.
— Fui eu quem acabou de separar as coisas. Seu casamento é problema seu. O risco que você criou dentro da empresa é problema meu.
Larissa também foi chamada separadamente para prestar esclarecimentos sobre sua relação com o superior direto.
Ela não foi arrastada para fora do prédio nem demitida diante de todos.
Mas perdeu imediatamente a posição de secretária direta de Rafael enquanto a empresa analisava o conflito de interesse.
Aquela consequência foi suficiente para destruir a fantasia que os dois haviam construído.
Na noite da festa, Larissa imaginara que entraria ao lado de um futuro presidente.
Agora percebia que Rafael não controlava nem mesmo o próprio futuro dentro da empresa.
Quando encontrou Rafael no estacionamento algumas horas depois, ela o confrontou.
— Você disse que assumiria a presidência.
— Não começa.
— Você também disse que seu casamento estava praticamente encerrado.
Rafael apertou o botão da chave do carro.
— Não é hora para isso.
— Para você nunca é hora.
Ele se virou.
— Larissa, acabou.
Ela ficou imóvel.
— Você está terminando comigo para recuperar a Mariana?
— Estou tentando impedir que minha vida desmorone.
Larissa riu, mas seus olhos estavam cheios de raiva.
— Então era isso.
— Isso o quê?
— Enquanto tudo parecia fácil, eu era importante. Agora virei o problema que você precisa eliminar.
Rafael não respondeu.
Talvez porque, pela primeira vez, estivesse ouvindo de outra pessoa exatamente o tipo de homem que havia se tornado.
Quando voltou para casa, encontrou duas malas de Mariana perto da porta.
— Você vai embora?
— Por alguns dias.
— Para onde?
— Não importa.
Ela havia reservado um apartamento mobiliado por um período curto até decidir o que faria com calma. Não queria transformar a saída em guerra, nem abandonar direitos sobre o imóvel onde moravam.
Só precisava de espaço.
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Eu terminei com a Larissa.
Mariana fechou o zíper da última mala.
— Essa era uma decisão que você deveria ter tomado antes.
— A empresa também nos afastou profissionalmente.
Ela assentiu.
— Certo.
Rafael pareceu incomodado com a falta de reação.
— Você não vai dizer nada?
— O que espera que eu diga?
— Que percebe que estou tentando consertar.
Mariana parou diante dele.
— Você está apagando incêndios, Rafael. Consertar seria assumir o que fez sem esperar uma recompensa imediata.
Ele baixou os olhos.
— Eu amo você.
Dessa vez, Mariana sentiu a dor chegar.
Não como na fotografia.
Não como no colar.
Mas como a lembrança do homem com quem ela realmente havia sido feliz muitos anos antes.
— Talvez ame — respondeu. — Mas amor sem respeito não é uma casa onde eu queira continuar morando.
Rafael sentou-se no sofá.
Pela primeira vez desde o início daquela crise, não tentou falar sobre a presidência.
— Você já decidiu pelo divórcio?
Mariana respirou fundo.
— Decidi pela separação. O restante será tratado com calma e da forma correta.
— Dez anos acabam assim?
— Não acabaram ontem.
Ela segurou a alça da mala.
— Foram acabando cada vez que você mentiu e esperou que eu aceitasse.
Antes de sair, Mariana pediu apenas uma coisa.
— Não use seu pai para falar comigo. Não use a empresa. Não mande funcionários atrás de mim. Se precisar tratar de algo sobre nosso patrimônio ou nossa separação, fale diretamente comigo ou pelos profissionais que escolhermos.
Rafael assentiu.
— Tá bom.
Mariana abriu a porta.
Ele a chamou uma última vez.
— Eu sinto muito.
Ela se virou.
— Espero que um dia você entenda pelo quê.
Nas semanas seguintes, a vida ficou menos dramática e mais difícil de um jeito silencioso.
Havia documentos para organizar, contas para dividir, objetos que precisavam deixar de ser “nossos” e voltar a ser “meus” ou “seus”.
Rafael tentou algumas vezes insistir numa reconciliação.
Mariana não aceitou.
Quando percebeu que não seria convencida por flores, mensagens ou promessas, ele finalmente parou de pressioná-la.
Roberto telefonou apenas uma vez.
— Mariana, quero que saiba que não vou interferir na sua decisão.
— Obrigada.
— E quero pedir desculpas pelo que meu filho fez naquela festa.
— O senhor não precisa responder por ele.
Roberto ficou alguns segundos em silêncio.
— Você fez parte da nossa família durante muitos anos. Independente do que acontecer, eu respeito você.
Mariana sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— Eu também respeito muito o senhor.
— Então cuide da sua vida agora. Não da carreira do Rafael.
Ela sorriu pela primeira vez em dias.
— É exatamente o que estou fazendo.
No Grupo Almeida, Rafael não foi demitido, porque seus resultados profissionais continuavam existindo.
Mas a sucessão deixou de ser tratada como destino garantido.
Ele permaneceu na vice-presidência sob regras mais rígidas de governança, perdeu autonomia sobre decisões envolvendo subordinados com quem tivesse relação pessoal e precisou aceitar que o sobrenome não lhe dava direito automático à cadeira do pai.
Larissa pediu desligamento alguns meses depois.
Não porque Mariana exigiu.
Nem porque Roberto ordenou.
Ela mesma percebeu que permanecer naquela estrutura significaria viver todos os dias cercada pelas consequências de uma escolha que tinha ajudado a construir.
Antes de ir embora, enviou uma última mensagem para Mariana.
“Eu sei que fui cruel com você. Não espero que me perdoe.”
Mariana leu.
Não respondeu.
Ela não precisava transformar Larissa em amiga para seguir adiante.
Também não precisava odiá-la para sempre.
O silêncio foi suficiente.
O processo de separação avançou com acordos sobre o patrimônio construído durante o casamento. Mariana recusou propostas que pareciam destinadas a comprar sua discrição e também não tentou tirar de Rafael aquilo que não lhe pertencia.
Queria apenas o que era justo.
Durante esse período, começou a perceber algo que havia esquecido.
Nos primeiros anos de casamento, enquanto Rafael crescia profissionalmente, ela participava de praticamente todas as decisões da vida dos dois. Organizava orçamento, comparava contratos, revisava apresentações quando ele precisava de uma segunda opinião e encontrava soluções quando o dinheiro ou o tempo faltavam.
Com os anos, havia reduzido essas habilidades ao rótulo de “coisas de casa”.
Agora passou a utilizá-las em pequenos trabalhos de organização administrativa para conhecidos que mantinham negócios próprios.
Um serviço virou indicação.
A indicação virou outro trabalho.
Nada aconteceu de uma hora para outra.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Mariana recebia dinheiro por algo construído exclusivamente por ela.
Quase um ano depois da festa, ela encontrou Rafael para assinar os últimos documentos da separação.
Ele parecia diferente.
Menos arrogante.
Mais cansado.
— Meu pai decidiu ficar mais tempo na presidência — comentou.
Mariana guardou sua cópia do documento.
— Talvez seja melhor para a empresa.
Rafael sorriu sem alegria.
— Antigamente eu teria ficado furioso ouvindo isso.
— E agora?
— Agora sei que eu estava tão preocupado em chegar ao lugar dele que parei de perceber o que estava destruindo no caminho.
Mariana olhou para ele.
Não havia satisfação em vê-lo arrependido.
Só uma serenidade que, meses antes, parecia impossível.
— Espero que você faça alguma coisa boa com essa conclusão.
Rafael assentiu.
— Eu também.
Ele respirou fundo.
— Se eu pudesse voltar naquela noite…
Mariana o interrompeu com delicadeza.
— Não pode.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
Foi a última vez que precisaram conversar sobre o passado.
Naquela tarde, Mariana voltou para o apartamento menor que havia escolhido para si.
Colocou a chave sobre a mesa, abriu as janelas e deixou o vento entrar.
O celular vibrou com a confirmação de um novo trabalho para a semana seguinte.
Ela sorriu.
Um ano antes, outra mensagem recebida no celular tinha feito Mariana acreditar que uma mulher estava roubando o lugar dela.
Agora entendia que aquele lugar nunca deveria depender de um marido, de um sobrenome ou da aprovação de uma família poderosa.
Mariana tinha perdido um casamento.
Mas recuperara algo que, sem perceber, havia deixado para trás muito antes daquela festa.
A própria voz.
E, naquela nova vida construída com calma, limites e escolhas próprias, ela finalmente voltou a ocupar o único lugar que ninguém deveria ter poder para tirar dela: o centro da própria história.
Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨