Parte 3
As portas do elevador se fecharam antes que Henrique pudesse responder.
Só quando fiquei sozinha percebi que minhas mãos tremiam. Não por arrependimento, mas porque durante muito tempo eu havia imaginado aquela conversa de outra forma. Sempre pensei que, se algum dia Henrique me machucasse, eu choraria, imploraria por respostas ou tentaria convencer aquele homem tão difícil de demonstrar sentimentos a escolher a mim.
Não fiz nada disso.
Na manhã seguinte, participei da entrevista para Londres.
Seu Carlos tinha razão. A sede já acompanhava algumas das minhas reportagens investigativas e procurava alguém com experiência em empresas brasileiras. A conversa durou pouco mais de quarenta minutos, e no fim me disseram que dariam uma resposta definitiva em dois dias.
Quando saí da sala, encontrei uma mensagem da minha mãe.
Seu pai descobriu que você cancelou o casamento de vez. Está furioso. Posso ir conversar com você?
Respondi que sim.
Ela apareceu na minha casa naquela noite carregando uma pequena bolsa. Pela primeira vez, parecia menos preocupada em acalmar Roberto e mais preocupada comigo.
— Seu pai disse que você está jogando fora uma oportunidade que qualquer mulher aceitaria.
Tirei duas canecas do armário.
— Então ele pode se casar com Henrique.
Minha mãe arregalou os olhos.
Acabei rindo.
Foi uma risada pequena, cansada, mas foi a primeira vez em dois dias que senti alguma leveza.
Depois, contei sobre Valéria.
Contei sobre o Rio, sobre a fotografia, sobre o restaurante e sobre a maneira como Henrique abandonara tudo quando soube que ela estava em perigo.
Minha mãe ficou em silêncio.
— Você ainda ama ele?
Demorei para responder.
— Acho que sim.
Ela segurou minha mão.
— Então vai voltar?
— Não.
Minha mãe pareceu surpresa.
— Amar alguém não torna aceitável qualquer coisa que essa pessoa faça.
Enquanto dizia aquilo, percebi que não estava falando apenas de mim.
Minha mãe também percebeu.
Baixou os olhos.
Durante anos, ela desculpara meu pai por tudo. Gritos, humilhações, cobranças, a forma como ele transformava cada decisão da família numa questão de dinheiro.
Talvez fosse por isso que eu também tivesse aprendido a encontrar desculpas para Henrique.
Dois dias depois, a confirmação chegou.
Eu havia sido aceita para o programa de Londres.
A viagem seria em seis semanas.
Quando contei a Seu Carlos, ele apertou meu ombro.
— Aproveite essa oportunidade. E não ache que precisa provar nada para ninguém.
Na mesma tarde, Henrique voltou à redação.
Dessa vez, pediu autorização para falar comigo e ficou esperando minha resposta.
Aceitei encontrá-lo numa cafeteria próxima.
Ele parecia mais organizado do que na primeira vez, mas havia olheiras profundas sob seus olhos.
— Valéria está estável — disse.
— Que bom.
— Ela vai permanecer no Rio.
Mexi o café sem beber.
— Henrique, se você veio me informar sobre ela, não precisava.
— Eu vim porque passei anos fingindo que aquela parte da minha vida nunca existiu.
Levantei os olhos.
Ele contou que deixara o Rio depois da ruptura com Valéria e fizera uma promessa a si mesmo de nunca mais voltar para aquele ambiente. Em São Paulo, dedicara toda a energia aos negócios da família e evitara mencionar o passado até para pessoas próximas.
— Quando Valéria foi levada por causa de problemas ligados àquela época, eu senti que era responsabilidade minha.
— Responsabilidade?
— Eu conhecia aquelas pessoas. Sabia como encontrá-la. Sabia que, se não fosse, talvez ninguém chegasse a tempo.
Assenti devagar.
— Eu consigo entender por que você foi.
Henrique pareceu surpreso.
— Consegue?
— O que eu não aceito é como você foi.
Ele abaixou os olhos.
— Você saiu do nosso casamento dizendo apenas que seria adiado. Nem perguntou se eu ficaria bem. Nem pensou no bebê. Nem me contou quem era Valéria.
— Eu sei.
— Não, Henrique. Você sabe agora.
Minha voz permaneceu baixa.
— Naquele momento, sua certeza era de que eu esperaria. Porque eu sempre esperei.
Ele não negou.
Perguntei então algo que me atormentava desde o bar.
— Quando me conheceu, você percebeu que eu parecia com ela?
Henrique fechou os olhos por um instante.
— Percebi.
Meu peito apertou.
Mesmo já esperando aquela resposta, ouvi-la foi diferente.
— E ainda assim começou a sair comigo.
— Mariana…
— Responde.
— No início, a semelhança chamou minha atenção.
Minha mão apertou a colher.
Henrique continuou antes que eu me levantasse.
— Mas você começou a me interessar justamente quando percebi que era completamente diferente dela.
Soltei uma risada amarga.
— Isso deveria me fazer sentir melhor?
— Não sei.
Pelo menos ele não tentou transformar aquilo em uma frase bonita.
— Eu nunca planejei usar você para substituir ninguém. Nunca comparei suas escolhas com as dela. Quando aceitei jantar com você, quando decidi continuar vendo você, quando pedi para você ter nosso filho… já era você.
Olhei para ele.
— Mas quando precisou escolher quem proteger primeiro, seu passado decidiu por você.
Henrique ficou em silêncio.
— Sim.
Aquela única palavra me machucou mais do que qualquer justificativa.
Mas também trouxe clareza.
Eu já não precisava investigar nada.
Henrique ainda estava emocionalmente preso a uma história que acreditava ter enterrado.
Talvez não estivesse apaixonado por Valéria como antes.
Talvez estivesse.
Isso já não era a parte mais importante.
O problema era que ele havia me convidado para construir uma família sem antes fechar aquela porta.
— Vou para Londres — falei.
Ele ergueu a cabeça.
— A resposta saiu?
— Sim.
Vi os músculos do maxilar dele se contraírem.
— Quando?
— Em seis semanas.
— Posso pedir uma coisa?
— Pode pedir.
— Não me afaste do nosso filho.
Minha reação veio imediatamente.
— Eu nunca disse que faria isso.
Henrique respirou mais fundo.
Expliquei que ele receberia todas as informações médicas importantes e poderia participar das decisões relacionadas à criança. Se estivesse presente de maneira respeitosa, não haveria motivo para excluí-lo.
— Mas não confunda nosso filho com nosso relacionamento.
Ele assentiu.
— Eu entendo.
Nos dias seguintes, algo inesperado aconteceu.
Henrique realmente respeitou o limite.
Não apareceu sem avisar.
Não mandou flores.
Não tentou usar minha gravidez para me pressionar.
Perguntava sobre consultas e respondia apenas quando eu lhe dava alguma informação.
Então Valéria me procurou.
A princípio, pensei em ignorar.
Mas sua mensagem era curta.
Não quero convencer você de nada. Só acho que deve ouvir uma coisa diretamente de mim.
Aceitei encontrá-la em um café movimentado.
Ela parecia diferente da mulher na fotografia antiga. Ainda havia força naquele olhar, mas também um cansaço profundo.
— Você realmente se parece comigo — disse assim que sentou.
Sorri sem vontade.
— Já ouvi isso.
Valéria apoiou as mãos sobre a mesa.
— Henrique e eu fomos importantes um para o outro. Muito.
Esperei.
— Mas isso acabou há muitos anos.
— Então por que ele largou o casamento?
Ela respirou fundo.
— Porque Henrique tem uma doença terrível chamada culpa.
Quase ri.
Valéria continuou séria.
— Quando ele saiu do Rio, achou que podia simplesmente abandonar aquela vida e deixar tudo para trás. Eu fiquei. Quando as coisas deram errado comigo, ele sentiu que aquilo era uma dívida antiga.
— Ele pediu você em casamento.
— Pediu.
— E você ainda o ama?
Valéria demorou alguns segundos.
— Eu amo a pessoa que ele foi quando nós éramos jovens. Isso não significa que eu queira a vida dele hoje.
A resposta parecia sincera.
Mas não resolveu nada.
— Ele deixou o altar por você.
— Eu sei.
Ela desviou os olhos.
— E, se você quer saber, eu disse a ele que foi um idiota.
Pela primeira vez, sorri de verdade.
Valéria também.
— Ele passou anos tentando ser exatamente o oposto do homem que era no Rio — continuou. — Ficou tão controlado que desaprendeu a dizer o que sente.
— Isso não é problema meu.
— Concordo.
A resposta me surpreendeu.
— Não vim pedir que você perdoe Henrique. Vim dizer que não vou voltar para a vida dele. E que você não deveria tomar nenhuma decisão pensando que existe uma competição entre nós.
Olhei para ela por alguns segundos.
Então entendi algo importante.
Durante dias eu havia olhado para Valéria como se ela tivesse roubado alguma coisa de mim.
Mas aquela mulher nunca me prometera nada.
Henrique prometera.
Quando saí do café, enviei apenas uma mensagem para ele:
Conversei com Valéria. Não muda minha decisão.
A resposta veio alguns minutos depois.
Eu sei.
Naquela noite, meu pai apareceu no meu apartamento.
Entrou reclamando antes mesmo de eu conseguir fechar a porta.
— Você está mesmo planejando fugir para Londres?
— Não estou fugindo.
— Grávida! Largando um casamento com um homem como Henrique!
Minha mãe estava atrás dele.
Pela expressão dela, percebi que tentara impedi-lo.
— Você sabe quanto essa união significaria para nossa família? — Roberto continuou.
Aquela frase finalmente revelou o que eu sempre soubera.
Não era minha felicidade.
Era a família dele.
O prestígio dele.
As oportunidades dele.
— Pai, Henrique não é um investimento seu.
Roberto bateu a mão na mesa.
— Eu sou seu pai!
— Exatamente. E em nenhum momento você perguntou se eu estava bem.
Ele ficou calado.
Minha mãe me olhou.
Roberto abriu a boca novamente.
Mas ela falou primeiro:
— Chega.
Nós dois viramos para ela.
Minha mãe estava tremendo.
Mesmo assim, repetiu:
— Chega, Roberto.
Meu pai encarou a própria esposa como se nunca a tivesse visto.
— Você vai ficar contra mim também?
Ela apertou a alça da bolsa.
— Eu vou ficar do lado da minha filha.
Foi um gesto pequeno.
Mas naquela sala, pareceu enorme.
Roberto saiu batendo a porta.
Minha mãe continuou parada, assustada com a própria coragem.
Aproximei-me e abracei-a.
Na manhã seguinte, comecei a separar os documentos da viagem.
Passaporte.
Exames.
Contrato.
Relatórios médicos.
No fundo de uma gaveta encontrei a caixa onde guardara minha aliança.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Depois fechei a tampa.
Eu ainda amava Henrique.
Mas pela primeira vez, isso já não significava que eu precisava permanecer no lugar onde ele me deixara esperando.
Coloquei a caixa sobre a mesa.
E enviei uma mensagem:
Henrique, venha buscar sua aliança amanhã. Antes de eu partir, precisamos encerrar aquilo que começou no altar.
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