Parte 3
Rafael virou o rosto tão depressa que eu quase recuei.
— O que você acabou de dizer?
Olhei para a porta do quarto de Davi. Não queria que meu filho me ouvisse.
— Vamos falar mais baixo.
— Não muda de assunto.
A voz dele continuava controlada, mas suas mãos estavam fechadas.
— O que significa “não estar aqui por muito mais tempo”?
Respirei fundo.
— Eu fui diagnosticada com leucemia aguda de alto risco.
Por alguns segundos, Rafael apenas me encarou.
Depois riu sem humor.
— Você acha que eu vou acreditar numa coisa dessas agora?
A frase doeu, mas eu não podia culpá-lo. Eu tinha acabado de admitir que esconderia dele a existência do próprio filho durante cinco anos.
Peguei o celular, abri a foto do diagnóstico e estendi a tela.
Rafael não pegou o aparelho.
Apenas leu.
Vi seu rosto mudar devagar.
Ele lembrou do sangue no auditório. Dos meus braços machucados. Do cansaço que eu já não conseguia esconder.
— Desde quando você sabe?
— Há pouco tempo.
— E já começou o tratamento?
Fiquei calada.
Rafael levantou os olhos.
— Mariana.
— Fiz os exames iniciais. Ainda precisava organizar algumas coisas.
— Organizar o quê?
— Davi. Trabalho. Dinheiro. Quem vai cuidar dele quando eu ficar internada.
Ele soltou o ar com força.
— Então sua solução foi continuar pedalando pela cidade fazendo entrega?
— Minha solução foi juntar o máximo que eu pudesse.
— Enquanto ficava cada vez mais doente?
— Eu não tinha muitas opções.
— Tinha uma.
Ele apontou para si mesmo.
— O pai do seu filho.
Aquela frase me calou.
Rafael se afastou alguns passos e ficou de costas para mim.
Eu conseguia imaginar a confusão dentro dele. Em poucas horas, eu tinha reaparecido, revelado que existia um filho de cinco anos e contado que estava gravemente doente.
— Foi por isso que você me procurou — disse ele.
— Foi.
— Não porque queria voltar.
— Não.
— Não porque sentia minha falta.
Baixei os olhos.
— Eu senti sua falta todos esses anos. Mas não voltei por isso.
Rafael assentiu devagar, como se aquela resposta confirmasse alguma coisa dolorosa.
— Você voltou porque precisa de alguém para ficar com Davi se morrer.
A palavra atingiu meu peito.
— Sim.
Ele virou-se novamente.
— Você consegue ser cruel de um jeito impressionante.
— Eu sei.
— Não, não sabe.
Rafael se aproximou, mas parou a uma distância segura.
— Você foi embora dizendo que não era boa o bastante. Depois teve meu filho e resolveu que eu também não era bom o bastante para saber que ele existia. Agora aparece quando acha que vai morrer e pretende simplesmente me entregar uma criança de cinco anos como se eu estivesse recebendo uma responsabilidade que você deixou pronta.
Minhas lágrimas escorreram.
— Eu não quero entregar Davi como se ele fosse uma obrigação.
— Então o que você quer?
— Quero que ele tenha um pai.
Rafael ficou em silêncio.
— Quero que ele conheça você antes de precisar de você — continuei. — Quero que saiba que não foi abandonado. Quero que tenha alguém que o ame se eu não conseguir ficar.
— E quem disse que você já pode decidir que não vai ficar?
Não consegui responder.
A porta se abriu atrás de nós.
Davi apareceu acompanhado de uma enfermeira, ainda com o acesso preso à mão.
— Mamãe?
Limpei o rosto imediatamente e fui até ele.
— O que foi, meu amor?
— Posso beber água?
A enfermeira disse que sim e voltou ao posto. Peguei o copo, mas minhas mãos estavam tremendo tanto que Rafael tirou o recipiente dos meus dedos.
— Eu dou.
Fiquei surpresa.
Ele se abaixou na altura de Davi.
— Devagar, certo?
Davi bebeu alguns goles enquanto observava Rafael.
— Você trabalha com soldado?
Rafael quase sorriu.
— Trabalho.
— Você manda neles?
— Às vezes.
Davi pensou.
— Minha mãe manda em mim também.
Eu soltei uma risada involuntária.
Rafael me olhou.
Durante um segundo, aquela tensão desapareceu.
Depois voltou.
Naquela noite, nenhum de nós foi embora.
Davi dormiu. Eu permaneci numa cadeira perto da cama e Rafael ficou próximo à janela, quase sempre em silêncio.
De vez em quando, eu percebia seu olhar sobre o menino.
Era uma expressão estranha.
Havia mágoa.
Havia curiosidade.
E havia algo que eu conhecia muito bem.
Amor tentando nascer no meio da raiva.
Perto da meia-noite, Rafael perguntou:
— Ele sabe alguma coisa sobre mim?
— Sabe que o pai não vivia conosco.
— Você disse que eu fui embora?
— Nunca.
Ele me encarou.
— O que disse?
— Que a vida tinha separado a gente antes de eu descobrir que estava grávida. Eu nunca falei mal de você.
Rafael assentiu.
— Pelo menos isso.
Abaixei a cabeça.
— Você tem direito de ficar com raiva.
— Não quero seu direito para ficar com raiva. Quero meu filho de volta na minha vida.
Levantei os olhos.
— Eu não vou impedir.
— Vai mesmo?
A pergunta me atingiu.
— Não vou fugir outra vez.
Ele respirou fundo.
— Então amanhã começamos a resolver duas coisas.
— Quais?
— Minha paternidade e seu tratamento.
— Rafael…
— Não estou pedindo permissão para cuidar do meu filho.
— E eu não estou recusando isso.
— Então qual é o problema?
— Eu não quero que você pense que estou usando Davi para conseguir seu dinheiro.
Rafael ficou me olhando durante alguns segundos.
— Aquela porcaria daquele cartão realmente mexeu com você.
Não respondi.
Ele passou a mão pela nuca.
— Eu estava com raiva quando coloquei o cartão na sua frente.
— Eu sei.
— Queria que você sentisse um pouco do que eu senti quando desapareceu.
Fiquei surpresa com a franqueza.
— Funcionou.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Não foi uma das coisas de que mais me orgulho.
Na manhã seguinte, Davi recebeu alta.
Rafael não permitiu que eu voltasse pedalando para casa. O triciclo já tinha sido levado para conserto e ele nos deixou no apartamento.
Quando entrou, seu rosto mudou.
Não havia sujeira nem abandono. Eu sempre fiz o possível para manter tudo organizado.
Mas era impossível esconder a falta de espaço.
A cama de Davi ocupava um canto. A minha ficava separada por uma estante. Na pequena cozinha, havia contas presas com ímãs na geladeira.
Rafael olhou tudo sem comentar.
Davi correu para buscar um desenho.
— Olha.
Rafael pegou a folha.
Era um homem alto de uniforme ao lado de um menino.
Meu coração apertou.
— Quem é? — Rafael perguntou.
Davi deu de ombros.
— Meu pai.
Rafael ficou imóvel.
— Você nunca viu seu pai.
— Mas eu imaginei.
Davi apontou para o desenho.
— A mamãe disse que ele era corajoso.
Rafael levantou os olhos para mim.
Eu precisei desviar.
Naquela tarde, fui a uma consulta na hematologia.
Dessa vez Rafael foi comigo.
O médico explicou que o tratamento precisava começar rapidamente. Falou de internação, quimioterapia, riscos, exames frequentes e da possibilidade de remissão.
Nada era garantido.
Mas também não era uma sentença imediata.
Quando saímos, fiquei sentada no corredor olhando para o chão.
— Eu não sei como vou fazer isso e cuidar do Davi ao mesmo tempo.
Rafael respondeu sem hesitar.
— Você não vai fazer sozinha.
— Sua vida já está organizada.
— Minha vida mudou ontem.
Olhei para ele.
— E seu casamento?
A pergunta deixou um silêncio entre nós.
Rafael demorou antes de responder.
— Eu vou resolver isso com honestidade.
— Não quero destruir a vida de outra pessoa.
— Você não vai decidir isso por mim também.
A frase foi dura, mas justa.
Ele continuou:
— Eu estava seguindo em frente. Pelo menos era isso que eu tentava fazer. Agora descobri que tenho um filho. Isso muda minhas escolhas, mas a responsabilidade por essas escolhas é minha.
Assenti.
Naquela semana, Rafael reconheceu oficialmente a paternidade de Davi.
Não houve comemoração.
Não parecia certo transformar aquilo numa cena feliz quando existiam cinco anos perdidos entre nós.
Mas, quando saímos do cartório e Davi perguntou se podia finalmente chamá-lo de pai, Rafael se abaixou diante dele.
— Pode, se você quiser.
Davi sorriu.
— Então tá, pai.
Rafael tentou responder.
Não conseguiu.
Apenas abraçou o menino.
Eu virei o rosto porque sabia que aquele momento não me pertencia.
Eu tinha sido responsável por adiar aquilo durante cinco anos.
Naquela mesma noite, antes de eu iniciar a internação, Rafael me encontrou arrumando a mochila de Davi.
— Ele vai ficar comigo enquanto você estiver no hospital.
— Eu sei.
— Você está com medo?
Parei.
— Muito.
Rafael se aproximou.
— Do tratamento?
Balancei a cabeça.
— De não voltar para buscar meu filho.
Ele permaneceu quieto.
Então coloquei dentro da mochila o dinossauro preferido de Davi e fechei o zíper.
— Mas, pela primeira vez desde que recebi o diagnóstico, eu sei que ele vai ficar bem.
Rafael segurou meu pulso antes que eu me afastasse.
Não forte.
Apenas o suficiente para me fazer olhar para ele.
— Eu não quero que você use isso como desculpa para desistir.
— Não estou desistindo.
— Então promete.
— O quê?
Os olhos dele ficaram vermelhos.
— Que dessa vez, se estiver com medo, você vai falar. Não vai desaparecer.
Minha garganta apertou.
— Eu prometo.
Rafael soltou meu braço.
Depois apontou para a pasta com meus exames sobre a mesa.
— E agora você vai me contar tudo. Do começo ao fim. Sem esconder mais nada.
Eu olhei para ele e percebi que aquele era o primeiro passo de uma coisa que eu nunca tinha conseguido fazer ao lado de Rafael.
Parar de decidir tudo sozinha.
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