Parte 4
Gustavo continuou parado diante da minha porta.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
A expressão dele misturava raiva, incredulidade e alguma coisa que eu conhecia bem demais: medo de ser abandonado.
No passado, enxergar aquele medo teria destruído qualquer limite que eu tentasse estabelecer.
Dessa vez, não.
— Mariana — ele disse por fim. — Não faz isso.
Segurei a porta.
— Eu já fiz.
— A gente pode conversar depois que você se acalmar.
— Eu estou calma.
— Não está.
— Gustavo, você precisa parar de decidir por mim o que eu sinto.
Ele fechou os olhos e passou a mão pelo rosto.
— Tá bom. Eu errei com a Isabela. Eu devia ter terminado o que tinha com você antes de começar a namorar.
A frase me atingiu de um jeito estranho.
Dias antes, eu teria dado tudo para ouvi-lo admitir aquilo.
Agora parecia apenas o mínimo.
— Devia.
— Mas isso não apaga tudo entre a gente.
— Não apaga.
Ele me olhou, talvez esperando alguma abertura.
Continuei:
— Você foi meu melhor amigo. Foi minha família quando eu perdi a minha. Eu nunca vou fingir que isso não aconteceu.
A tensão nos ombros dele diminuiu um pouco.
— Então fica.
— Não.
A esperança desapareceu tão rápido quanto apareceu.
— Eu também estive ao seu lado quando sua família acabou — lembrei. — Eu cuidei de você quando você não conseguia cuidar de si mesmo. Fiz isso porque amava você. Nunca transformei aquilo em autorização para decidir sua vida.
— Eu nunca decidi sua vida.
Olhei para as malas.
Depois para ele.
— Você acabou de dizer que eu estou jogando minha vida fora porque escolhi uma cidade sem você.
Gustavo abriu a boca, mas não respondeu.
— Você me indicou para uma vaga, e eu passei anos acreditando que devia minha carreira a você. Você me acolheu quando meus pais morreram, e eu passei anos acreditando que devia minha permanência ao seu lado. Você foi bom comigo, e eu transformei sua bondade antiga numa obrigação de aceitar sua crueldade atual.
— Crueldade?
A palavra o incomodou.
— Mariana, eu nunca obriguei você a dormir comigo.
— Não.
Fiz questão de responder imediatamente.
— E eu nunca vou dizer que obrigou.
Ele pareceu respirar melhor.
Então completei:
— Mas você sabia que eu amava você.
O silêncio voltou.
Gustavo desviou os olhos.
Aquele pequeno gesto respondeu antes dele.
— Você sabia — repeti.
— Eu imaginava.
— E mesmo assim continuou.
— Porque você também queria.
— Eu queria você. Você queria a facilidade de me ter sem precisar me escolher.
Ele apertou os lábios.
— Não é tão simples.
— Para mim também nunca foi.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Olhei de relance.
Era outra mensagem de Isabela.
Não abri.
Gustavo percebeu o nome na tela.
— Ela está falando com você?
— Está.
— O que ela disse?
— Isso não é mais problema seu comigo.
Ele deu um passo para dentro.
Dessa vez, coloquei a mão no peito dele e o empurrei de volta para o corredor.
Não com força.
Só o suficiente para marcar a fronteira.
— Não entra.
Gustavo ficou me encarando.
— Você está escolhendo uma garota que conheceu ontem no meu lugar?
— Não estou escolhendo Isabela.
Minha voz saiu firme.
— Estou escolhendo a mim.
Ele riu sem humor.
— Nossa, que bonito.
— Pode ironizar.
— Você contou tudo para ela e agora posa como se fosse moralmente superior.
— Eu contei porque ela perguntou se estava sendo enganada.
— Você podia ter deixado que eu resolvesse.
— Você teve meses para resolver.
Ele ficou quieto.
Foi aí que percebi que não precisava vencer aquela discussão.
Não precisava fazê-lo compreender tudo.
Não precisava sair dali com um pedido de desculpas perfeito.
Durante anos, eu confundira encerramento com a necessidade de Gustavo reconhecer minha dor.
Meu encerramento não dependia mais dele.
Peguei o celular e abri a mensagem de Isabela.
“Terminei definitivamente. Ele tentou dizer que foi só uma coisa física e que ia parar depois que eu me mudasse. Não consigo começar um casamento imaginando o que mais precisaria descobrir. Não estou mandando isso para você se sentir culpada. Só achei justo que soubesse.”
Li uma vez.
Depois bloqueei a tela.
Gustavo continuava me observando.
— Ela terminou mesmo? — perguntou.
Eu não respondi.
— Mariana.
— Pergunte a ela.
— Ela me bloqueou.
— Então respeite.
Ele soltou o ar lentamente.
Aquela talvez fosse a primeira consequência que ele não conseguia contornar.
Não havia discurso capaz de obrigar Isabela a voltar.
Também não havia passado capaz de me obrigar a ficar.
— Eu amo ela — disse Gustavo.
A frase doeu.
Mas não como antes.
Doía como uma verdade que finalmente deixava de me destruir.
— Então deveria ter tratado o amor dela com respeito.
— Eu achei que conseguiria resolver tudo antes que ela descobrisse.
— Esse é o problema. Você não queria parar de machucar as pessoas. Queria impedir que elas descobrissem.
Gustavo ficou olhando para o chão.
Pela primeira vez, não tentou se defender imediatamente.
— Eu estraguei tudo.
— Estragou.
— Você não vai dizer que vai ficar tudo bem?
Quase sorri.
Era tão parecido com o Gustavo que eu conhecia na adolescência que meu peito apertou.
Mas nós não tínhamos mais dezesseis anos.
Eu não precisava me ferir para convencê-lo a viver.
Não precisava sacrificar minha vida para provar que ele tinha valor.
— Não sei se vai ficar tudo bem para você — respondi. — Isso depende do que você fizer daqui para frente.
Ele ergueu os olhos.
— E para você?
Olhei para as malas.
— Para mim, vai.
Dessa vez, tive certeza.
Gustavo permaneceu no corredor por mais alguns segundos.
Então assentiu devagar.
Não pediu abraço.
Não tentou me tocar.
Talvez finalmente tivesse entendido que não tinha mais esse direito.
Antes de virar as costas, perguntou:
— Você se arrepende de ter me conhecido?
A pergunta me pegou desprevenida.
Pensei na chuva.
No guarda-chuva.
Nos dias em que nós dois fomos tudo que o outro tinha.
Pensei também na fumaça de cigarro, nos preservativos caídos e na maneira como ele sorriu ao falar de outra mulher enquanto ainda me usava como conforto.
— Não.
Ele pareceu surpreso.
— Não me arrependo — repeti. — Mas isso não significa que eu queira continuar.
Gustavo assentiu.
Então foi embora.
Fechei a porta.
Fiquei com a mão sobre a maçaneta por alguns segundos.
Nenhuma explosão.
Nenhuma cena dramática.
Nenhuma sensação de vitória.
Apenas silêncio.
E, pela primeira vez, aquele silêncio parecia meu.
Peguei as malas e fui para o aeroporto.
Durante o trajeto, começou a chover.
Observei as gotas escorrerem pela janela do carro e me lembrei da motorista que me oferecera uma toalha poucos dias antes.
Também pensei na chuva de dez anos atrás.
Naquela época, Gustavo apareceu com um guarda-chuva e me deu uma casa quando eu acreditava não ter mais nenhuma.
Por muito tempo, achei que isso significava que eu deveria permanecer debaixo do guarda-chuva dele para sempre.
Agora eu entendia outra coisa.
Talvez alguém pudesse nos proteger durante uma tempestade sem se tornar dono de todos os nossos dias de sol.
No aeroporto, recebi uma última mensagem de Isabela.
“Boa sorte na sua mudança.”
Respondi:
“Para você também.”
Não viramos amigas.
Não precisávamos.
Éramos apenas duas mulheres que tinham descoberto versões diferentes da mesma mentira e decidido não competir pelo homem que havia mentido para ambas.
Antes de embarcar, enviei uma mensagem ao RH confirmando os últimos detalhes do meu desligamento.
A empresa havia tentado me convencer a cumprir mais algumas semanas, mas minha decisão já estava tomada.
Eu tinha economias suficientes para me manter durante alguns meses.
Não precisava resolver minha vida inteira naquele dia.
Precisava apenas começar.
Curitiba me recebeu com frio e céu cinza.
Aluguei temporariamente um apartamento pequeno no Batel, bem menor que o que eu tinha em São Paulo.
Nos primeiros dias, o silêncio me incomodava.
Eu acordava e procurava o celular esperando uma mensagem de Gustavo.
Às vezes, minha mão ainda ia automaticamente até a tela.
Então eu lembrava que ele estava bloqueado.
E respirava.
Comecei a enviar currículos.
Fiz entrevistas.
Recebi alguns “não”.
Pela primeira vez em muito tempo, precisava apresentar minha experiência profissional sem mencionar Gustavo, a empresa dele ou qualquer dívida emocional que tivesse construído na cabeça.
Foi difícil.
Também foi libertador.
Algumas semanas depois, recebi uma proposta de trabalho numa empresa menor.
O salário era parecido com o anterior, e a função me dava mais autonomia.
Quando li o e-mail, minha primeira reação foi procurar o nome de Gustavo na lista de contatos.
Eu queria contar.
Queria ouvir:
“Eu sabia que você conseguiria.”
Meus dedos ficaram imóveis sobre a tela.
Então percebi que não precisava daquela validação.
Fechei os contatos e liguei para mim mesma um café.
Naquela noite, comemorei sozinha no apartamento.
Pedi comida, sentei no chão porque ainda não tinha comprado todos os móveis e ri quando percebi que aquela cena provavelmente pareceria triste para qualquer outra pessoa.
Para mim, não parecia.
Parecia paz.
Dois meses depois, recebi um e-mail de Gustavo.
Ele não tentou contornar o bloqueio com dezenas de números.
Mandou apenas uma mensagem.
“Não estou escrevendo para pedir que volte. Só queria dizer que entendi algumas coisas. Eu usei tudo que fiz por você no passado como desculpa para acreditar que você estaria sempre disponível. Também machuquei Isabela e perdi a confiança dela. Não espero que nenhuma das duas me perdoe. Espero conseguir não repetir isso.”
Li devagar.
Não havia pedido de encontro.
Nenhuma declaração de amor.
Nenhuma tentativa de me trazer de volta.
Respondi apenas:
“Espero que consiga.”
E encerrei ali.
Não precisava odiá-lo.
Também não precisava salvá-lo.
A vida de Gustavo finalmente pertencia a Gustavo.
E a minha, a mim.
Meses depois, numa tarde chuvosa, saí do trabalho sem guarda-chuva.
Por alguns segundos, fiquei parada sob a marquise do prédio, observando a água cair sobre a rua.
A antiga Mariana provavelmente teria pensado nele.
Naquele dia, pensei apenas que precisava comprar um guarda-chuva.
Atravessei a rua correndo, entrei numa loja e escolhi um azul-escuro.
Quando saí, abri o guarda-chuva sobre minha própria cabeça.
Continuei andando.
A chuva seguia forte.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, eu não esperava que ninguém viesse me buscar.
Eu já sabia voltar para casa sozinha — e a vida que começava diante de mim finalmente parecia um lugar onde eu queria ficar.
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